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quarta-feira, 1 de junho de 2016

trans formações

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Já há um tempo parei de escrever, os textos do blog, a coluna no jornal, as palavras que eu guardava só para mim. Tentar voltar agora traz inegavelmente a sensação de um mundo que se transformou, como o tempo numa redoma de vidro passando e passando, folhas caindo e inverno chegando, e depois verão e sol e inverno tudo de novo.
Antes fosse apenas climático. A transformação foi toda em um novo estado de ser, e em um novo mundo exterior, com novas questões e complexidades. Muitas.
É como se não fosse mais possível escrever como antes, e apesar de ser natural a muda de pele, é algo que nos faz pensar. Se não escrevo mais como antes, se não posso escrever como antes, o que consigo entender do meu momento atual, em relação ao passado?
Primeiro, o vocabulário. O espaço acadêmico da faculdade, as aulas esperadas de teoria, o contato com novos pensamentos e autores e as iluminações que vira e mexe surgiam por conhecer a criação imagética de algumas obras fantásticas. As provocações do conhecimento. Os constantes trabalhos obrigatórios que, antes de merecerem as eternas reclamações, serviam para nos pôr em movimento. Os alunos zanzando pelos corredores. E, no meu caso, o tempo livre dedicado a ler tudo o que eu sempre quis conhecer. Vivência, novas palavras. O vocabulário estava em seu florescimento. Experimentava um estilo aqui e outro ali, achava o ponto alto conhecer Rimbaud, me preparava para Goethe e Tolstói, Dostoievsky e Herman Hesse arrepiaram alguns pelos, aproveitava prateleiras da biblioteca da faculdade que, na minha ignorância, parecia enorme. Hoje conheço maiores. Os dedos eram ágeis e às vezes se adiantavam a mim. O impulso para escrever não precisava de um catalisador. Eu pensava crônica, eu pensava poesia (ainda que o meu intenso autojulgamento e autocrítica me deixassem incomodada por dar ao que eu escrevia tão sofisticada categoria). Afinal, era o tipo de vida que eu estava levando.
Finda a faculdade, começo a trabalhar, meu tempo é dividido em horário comercial, aprendo relações humanas e frustrações, potências e barramento. O corpo sente, e muda. Não consigo dividir meu tempo. Não leio mais. Meu contato com cinema, agora sem alguém para me convidar a conhecer novos caminhos, resume-se ao caminho de menos resistência. Fico ligada então a questões mais... comerciais. O deslumbramento com aquelas produções outsiders sumiu, como também sumiram as produções outsiders do meu convívio. Vez ou outra. Os novos pensamentos e autores, as provocações do conhecimento, o estímulo, precisamente o estímulo, ficaram adormecidos. Não há pessoas zanzando no meu convívio. Fico sentada em uma sala solitária diante de um computador, prestando serviço para publicitários ranzinzas e mal educados. Chego em casa com a têmpora latejando e só penso em jantar. Não leio mais. Meu vocabulário se reduziu, foi enxugado, sento para escrever e pareço mimetizar as páginas da internet que leio diariamente. As frases se tornam curtas e para economizar tempo escolhe-se as palavras mais fáceis, que vêm à primeira vista. Sinto-me como um redator freelancer vendendo seus serviços por cinco reais um texto de oitocentas e cinquenta palavras sobre nutrição. Toda uma forma de pensamento: por esse preço, não vou quebrar a cabeça. Então você escolhe as palavras mais fáceis e a construção mais lógica e tradicional de frase, de sentido. Nada muito profundo. Afinal, o que vale é o preço, eu valho o preço, mesmo que por cinco reais. É mesmo? De forma que, quando você lê e lê e lê e lê enquanto navega por ondas cibernéticas, tudo parece igual. Torna-se seu vocabulário. Você pensa em tempo, em divisão de horas, cabe aquele livro de Nietzsche agora? Torna-se seu jeito de escrever. Porque tudo isso se torna, enfim, o tipo de vida que estou levando.
Bom. As questões complexas vão se interpelando. Então a culpa é do trabalho? Do dinheiro? Estudante dependendo de dinheiro paterno é fácil mesmo. Sim, vozes. Há culpa e não culpa. Afinal, falo de mim apenas. E de escolhas. Aquela coisa, dos 100 caminhos que podemos escolher. Muitos outros trilham rotas paralelas, outros perpendiculares, outros são oblíquos ou estão à margem. O mundo começa a se abrir, muitas vozes surgem, é tudo muito. Eu li hoje: num mundo globalizado, somos cidadãos do mundo e, portanto, havendo outras oportunidades, temos todo o direito de ir atrás delas.
À parte isso, pode ser que eu tenha usado óculos escuros durante um tempo depois que saí da faculdade. O ambiente lá pode ser uma bolha ou não, e os professores sempre se referiam ao "mundo lá fora" como difícil, diferente. Mundo lá fora. Que expressão engraçada.
Seja como for, um estado de ser infeliz em determinado lugar no horário comercial também te molda. A coisa mais legal do mundo é ver como existem pessoas com estados de ser tão diferentes em situações iguais. Há aquelas que estão infelizes, mas são ativos. Os que conseguem abstrair e construir seu mundo ideal nas horas vagas. Os que se afogam na tristeza. Os que permanecem inertes. Os que nem pensam. Os que pensam e continuam. Os que estão infelizes, mas não querem continuar. São os caminhos, vê?
Segundo, a superficialidade. Pode ser um ponto subjetivo, mas tem influência sobre mim. Em algum ponto, vi que tudo ao redor era desprovido de profundidade e consistência. Um mundo flutuava em noções, pensamentos, ações, comportamentos, palavras, sentidos, que só batiam em uma casca. Todo o resto passava ignorado, ou pior, dissimulado. Palavras viravam mercadoria. Orgânico, saudável, equilíbrio. Os comportamentos passam só pela primeira leitura, a mais instantânea, impulsiva, e assim se dão por satisfeitos. Há muitas discussões que poderiam ter sido evitadas, ou levadas a outro nível. Há muito medo e gente na defensiva. Ao mesmo tempo que há, curiosamente, um intenso trabalho de divulgação pessoal. De aprimoramento da imagem. Será que passa por um aprimoramento completo, mental, espiritual e físico? Ou é apenas um retoque de imagem como um programa de edição? Para se ajustar a valores de mercado.
Ao mesmo tempo, agora você é cidadão do mundo, da cidade, do seu bairro, da comunidade da sua casa. Multicultural. Se o que eu enxergo ao meu redor é uma casca superficial, também pode ser que enxergo o reflexo de mim mesma. Será? Às vezes compreender passa pelos incômodos. Então é isso, estou também vivendo na superficialidade? Que terrível.
Mas deve ser isso mesmo:  de um ponto ao outro, eu ainda não me encontrei. Da experimentação ao completo abandono, que trajetória mais irregular para o que eu pretendia! Não, não, devo passar agora para o passo adiante (ou um passo atrás), que se situa precisamente onde deveria ser o meio desses dois estados - a vivência, a experiência e o presente. Se todo início é o início e o final é o abandono, então devo estar no meio. Conhecendo os dois opostos, posso decidir onde me encontro. Pois a minha verdade não está sendo esta - apressada, apática e desconectada do conhecimento.
Movimento!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

a grande questão/o início de um outro blog

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Estive pensando: como se luta contra a banalidade?
A quietude é um estado de espírito, uma vivência internalizada das sensações. Falar exige por demais energia e pensamento lógico, aliás, mais do que esses dois fatores. Falar assume uma ação intrincada e complexa, mesmo que seja a coisa mais frívola a ser dita, 'como o tempo está frio'; existe a sua posição como comunicador e aquele com quem você se comunica, se comunicamos, é preciso que nos façamos compreensíveis. Não existe motivos para invertemos a sequência lógica da frase do tempo estar frio por qualquer outra sequência que fosse, a princípio, arbitrária ou anarquista. A outra pessoa não entenderia, ou até poderia fingir entender, mas em algum momento rompeu-se o fio da comunicação e mesmo que tenha sido uma frase muito banal para ser dita, foi uma perda desnecessária de energia e motivação vazia, nula. A troco de nada. Afora isso, quando falamos, externalizamos em palavras o que estamos pensando, e o pensamento em sua maioria das vezes tem uma formação nebulosa. Quando ele existe internalizado, suas conexões são feitas rapidamente, mesmo que de maneira um tanto indefinida. Ainda no caso frívolo, por exemplo, podemos pensar de modo subjetivo sobre o porquê estar frio. É capaz de os pensamentos vagarem de um extremo a outro. Se formos verbalizar, no entanto, pegamos apenas uma fração disso para ser organizada em uma sentença lógica. Então buscamos palavras e as entonações adequadas para aquilo que se quer dizer, porque não basta apenas as palavras em si, pois a ela junta-se todo o gestual e a melodia da fala. Ao falarmos do tempo frio, podemos dizer de várias maneiras. E não pensamos na frase pronta de antemão, mas de alguma maneira ela vai se formando à medida que tentamos clarear a fração do pensamento para aquela pessoa que está nos ouvindo.
Falar é complicado. Ao menos para mim, de alguma maneira que não entendo, tem sido complicado. São muitas coisas a serem levadas em conta: a escolha das palavras, a maneira com que você se comunica, a coerência com aquilo que lhe é interno e está sendo externalizado, é isso, sobretudo a coerência!, e ao final das contas, a rejeição da banalidade. Ao menos esse último é motivo pessoal meu.
E por que tudo isso?, você poderia se perguntar. Talvez exatamente porque se não estamos sendo coerentes, então estamos falhando em nossas relações humanas. E encontrar a coerência entre aquilo que está no seu pensamento e a forma com que você expressa verbalmente seu pensamento não é pouca coisa, pelo contrário, é algo de importante! Não deve ser visto com leviandade! É a expressão humana.
Claro que acabo falando aqui de uma coerência relacionada apenas à expressão, mas isso acaba se refletindo em um todo. Você não saber falar de maneira clara e precisa aquilo que você quer falar é um problema (essa é uma frase que poderia ter saído de um livro tolo de autoajuda, perdoem-me), porque você não estará se expressando por inteiro. Como consequência, sua relação com aquele que o ouve também não é completa, pois você não se fez entender por completo.
A isso somam-se também as diversas sutilezas perceptíveis. A cada segundo que você faz uma pausa para se lembrar de alguma palavra, sua credibilidade perante os outros cai.Imperceptível, dá para perceber pelo desvio de olhar que o outro faz nessa hora, como se te achasse um indivíduo muito flutuante sem clara certeza de suas palavras. Como uma dúvida.
A comunicação humana, no entanto, é repleta de remendos e tropeços e imperfeições. Sim, de fato. Está sujeita à maleabilidade. Mas não será talvez isso a causa de tanta incompreensão no mundo?
Não falo de boa oratória, mas talvez de articulação. Ter a capacidade de articular seus pensamentos de forma coerente, tanto com o que se quer falar quanto na forma com que se pretende falar. Se ao ser humano fosse dado apenas o direito de viver isolado, jamais - pense, jamais! - necessitaríamos disso. Não seria preciso falar! Por que falaríamos? Com quem? Poderíamos, é claro, conversar sozinhos com as estrelas, mas a comunicação seria outra, talvez. Mais louca, mais livre. Talvez emitiríamos sons, como os animais, embora o som também possa fazer parte de uma estrutura lógica.
Mas enfim. Ao final das contas, como já disse Tarkovski, a experiência do autoconhecimento é o único objetivo da humanidade; o homem "está eternamente estabelecendo uma correlação entre si mesmo e o mundo". E essencialmente é isso. Estamos o tempo inteiro nos relacionando de uma forma ou de outra, com outros e com nós mesmos. Mediando esta relação estão diversas formas de expressão, entre elas a fala. E podemos ser incompreendidos em muitos níveis. Talvez resta a cada um se perguntar em até qual medida se quer ser compreendido.

A minha, na mais completa e profunda possível. A banalidade é apenas a superfície de um oceano...
e ao se buscar essa comunicação mais completa e profunda é que se conhecem os e seus limites. (Acho que aí reside a minha atual luta interna)...


em tempo: Tarkovski fala por mim! Ainda que fale sobre cinema, veja o que ele diz sobre as palavras:
"O roteirista pode (...) escrever, simplesmente: 'Os personagens param junto à parede', e prosseguir, acrescentando o diálogo. No entanto, o que há de especial nas palavras que estão sendo ditas, e o que elas têm a ver com o fato de se estar de pé ao lado da parede? O sentido da cena não pode estar concentrado no texto dos personagens. 'Palavras, palavras, palavras' — na vida real, estas têm pouco significado, e só raramente, e por muito pouco tempo, pode-se testemunhar uma perfeita harmonia entre palavra e gesto, palavra e ato, palavra e sentido. Pois, em geral, as palavras de uma pessoa, seu estado interior e suas ações físicas desenvolvem-se em planos diversos. Eles podem se complementar ou, às vezes, até certo ponto, estar em concordância mútua; no mais das vezes, porém, elas se contradizem, e em alguns momentos de extremo conflito, desmascaram-se mutuamente."

terça-feira, 24 de novembro de 2015

um quadro para Raskólnikov

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Que sensação a de se encontrar com uma figura que julgava ter criado apenas na imaginação! Quando havia lido Crime e Castigo imaginava Raskólnikov em um quarto de teto afunilado, paredes marrons, ambientação um pouco escura, não sei se havia pensado em alguma janela, mas certamente a cama ficava encostada à parede. O chão poderia ser de assoalho, aquela madeira antiga que levanta muito pó. Mas imaginava sobretudo o teto. Não sei dizer exatamente se o que eu imaginava derivava da descrição do livro ou era a minha mente correndo solta - afinal, faz anos que li, mas o barato da leitura é justamente esse. Tampouco consigo explicar como é que a memória guarda essas ambientações imaginárias que fazemos com cada livro que lemos!
Mas eis que encontro sem querer essa imagem em algum canto da internet:



Der arme Poet (O poeta pobre) é um quadro do séc. XIX do pintor alemão Carl Spitzweg - e parece que um quadro bastante popular e adorado entre os alemães. Não conhecia a imagem e o que me chamou a atenção de imediato foi ter notado uma semelhança assustadora com a ideia que eu havia construído na imaginação do quarto de Raskólnikov, exceto talvez pelo tamanho do aposento, que no quadro está pequeno e apertado demais, em relação a um quarto mais espaçoso, porém vazio, que eu havia dado ao personagem. Para ficar ainda mais parecido com o que eu figurei, sabe-se lá de onde, eu teria que inverter a imagem:





E assim a minha imaginação sente-se quase invadida em segredo! Que sensação diferente...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

não é bem isso que eu queria dizer

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não sei bem pra quem estou escrevendo no momento,
mas queria dizer que há projeto novo saindo do forno com esse mesmo título
ele resume bem o que anda acontecendo e a falta de textos no momento:

uma noia na escolha das palavras.

nenhuma palavra que escolho e nem a construção das frases estão exprimindo aquilo que eu quero dizer.
não é desesperador?
as palavras entopem no bueiro e escapam só as mais fáceis, lisinhas, redondinhas, sempre escritas, sempre ditas. Que ódio.
perceber clichês na própria ordem das palavras, e depois nas palavras em si, é ofender o português.
e eu adoro o português!


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

um dia Deus me olhou e disse:

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Cada um traz em si um mundo inteiro. Cada um é responsável por aquilo que é, por aquilo que escolhe, sente, pensa, vive. Somos responsáveis pelo deslocamento de ar à nossa volta e pela energia de nossas intenções. Somos responsáveis pela aura cinza da depressão e do pessimismo ou pela aura amarela da sabedoria e do discernimento. Não vemos o invisível, mas se víssemos, todos nós seríamos como pequenos vulcões, variando nossa aura de acordo com as emoções, criando magnânimas tempestades e maremotos, em constante mutação. Somos os abalos sísmicos, os furacões, as enxurradas que levam sonhos embora, que lavam as almas da dor, as sequoias que tombam pela velhice e pelo vazio, o vento que fere, esfria e grita por toda a noite... mas também somos as flores que desabrocham, o roçar dos passarinhos, o suave correr de um rio, o alinhamento dos planetas, a rotação de um átomo. Trazemos em nós ambas as potências: da criação e da destruição. Trazemos os germes de todos os males, mas também a totalidade de todas as virtudes. Somos a caixa de Pandora e também o seu inverso. A mão que afaga é a mesma que apedreja, basta dar-lhe a potência de tais atos. Uma semente existe enquanto semente, guardando em si tudo o que há de ser, mas basta-lhe um solo infértil para que morra estéril. É nossa a escolha do jardim que cultivamos.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

as pequenas metáforas do cotidiano

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Pense em si mesmo como um saquinho de chá. Há muito dentro de você, que com água quente é capaz de se dissolver em deliciosos gostos e sabores para quem te escolher. Pense na água quente como o amor. Aquece a alma e deixa teu melhor agradável de saborear... Mas saquinhos de chá também estragam. Já viu um? Dentro destes há tanta secura que não há água quente capaz de disseminar sua essência. Ficam lá, sem jamais levar seus caprichos a ninguém, sufocados em si próprios. Para estes saquinhos, a gente pergunta: e a quantas pessoas você deixou de oferecer o teu mais íntimo segredo? Jamais responderão. Porque nunca se tornaram chá.
Nunca deixe o que existe dentro de você secar...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

êta, vidinha mais ou menos!

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A casinha na beirinha do morro ficava sempre de janelas escancaradas, como grandes olhos abertos para a vida. O vento fresco da manhã circulava trazendo os sussurros de bom dia das árvores e dos passarinhos. Acontecia sempre de acordar com um samba ressoante pela casa e o bem-te-vi que saracoteava no batente da janela todo dia atrás de migalhas de pão até arriscava alguns passinhos de dança. Gostava de aparecer por ali e se o samba acabasse antes, ele não ficava triste não, sinfoniava um allegro. Passarinho desses não se prende na gaiola, deixa é solto para que possa ir cantar em outras janelas, e se voltar é por vontade própria...No fim da tarde, aparecia novamente para dizer adeus e que logo pela manhã voltaria. Se juntava aos seus e voava longe, longe, formando lindos desenhos pelo céu. As árvores sacolejavam seus últimos espasmos, as fracas folhas caíam ao chão e se espalhavam pela terra, de onde renasceriam assim que tudo tivesse seu tempo. A dama-da-noite começava a se embelezar para seu encontro com a lua e o seu perfume inundaria a tudo e a todos de puro amor. A casinha ainda não fechava suas pestanas, pois à noite recebia novos visitantes: havia as corujas, sérias e formosas, e para elas cabia ouvir lindíssimas sonatas para piano. Eram mais ressentidas que os pássaros: se a música acabava, iam embora com um pio magoado. Mas também sempre voltavam. E quando o céu estava cheio de olhos piscantes, as janelas se fechavam e tudo se preparava para dormir no melodioso silêncio da eternidade.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

minha personagem interior

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Perdoem-me os que esperam aqui, agora, uma crônica sobre o cotidiano ou um conto iguais àqueles que já escrevi, com uma história em terceira pessoa e personagens ilustrativos. Hoje, não há uma história. Para não dizer que não há personagem, na verdade há uma sim: ela, que habita a minha cabeça e é dona de muitas inquietações. Fico a me perguntar quais os motivos para tanto, mas receio que ela também não sabe me dizer. Vez ou outra, pobre pequena, sofre de profundas overdoses irracionais. A sua droga vem dela mesma, e é o excesso das sensações. Ultimamente, tem sentido diariamente seus efeitos. No entanto, sabe que a culpa é dela mesma. E o que faz com essa consciência? Nada. Às vezes teimo com ela por isso, onde já se viu gastar tanta energia em coisa que não vale a pena? O problema é que valeu, um dia, e se hoje não vale mais é uma ideia difícil de ser desenraizada de seu coração. É como assistir a podridão de uma maçã e chegar o dia em que você quer comê-la, mas saber que já é tarde demais e ter de jogá-la no lixo sentindo na boca o gosto do que ela poderia ser. Como ela vive em mim, por conseqüência acabo sofrendo as conseqüências do que ela sente. Assusta-me a sua imensa capacidade de relembrar o passado e se permitir viver nele nas horas frustradas, revirando e revivendo cada mínima lembrança. Acabo sentindo fortes dores de cabeça, sem nunca entender o real motivo delas. Acho que agora sei: é essa criatura que vive em mim, que vive de minhas memórias, que me alimenta de seus desejos frustrados, que faz rolar no meu sangue somente o néctar de sucessivas decepções. Ando cansada disso tudo, o sangue já está fraco e minha cabeça declina. Não é mais uma boa moradia. Ela me falou hoje, quer ir embora. Porém, cumpre aviso prévio, sem prévio prazo, e só estou aguardando o momento triunfal em que sairá de mim para que eu possa renascer novamente.
Será uma perda significativa, no entanto. Uma parte de mim, cheia de vícios e costumes por vezes venenosos. Relembrei a história de nós duas, e fiquei pasma de perceber que data de muito tempo, desde quando eu era uma criança sonhadora e consciente. A nossa relação se tornou desgastante já precocemente, quando eu estava nos meus 12 anos e, por capricho dela, sofri uma desilusão amorosa silenciosa, impossível e digna somente dos adultos. Nunca a perdoei por ter-me talhado desde muito nova ao seu altar do amor, por ter-me feito à mercê desse sentimento, prioritariamente. Preferiria ter me preocupado com minhas bonecas.
Este texto é para exterminá-la de dentro de mim.

sábado, 24 de novembro de 2012

um belo dia, o surrealismo

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Hoje é mais um daqueles dias. Você acorda e sente que giraram a chave da sua cabeça em "realidade" para "surrealismo". Nada faz sentido. Nem a coisa mais óbvia e banal do cotidiano faz sentido. E é como se tivessem lhe arrancado seus olhos para botarem no lugar os olhos de alguma águia, que encarapitada no alto do galho de uma árvore observa qualquer coisa se mexer. E agora a águia cedeu seus olhos para você ser capaz de observar o que ela observa. Você de repente se torna mais sensível a qualquer coisa que exista e que passe por você derramando água da beirada do asfalto. Tudo lhe incomoda, porque você é capaz de ouvir cada mínimo som, e sentir cada mínimo cheiro, e a pensar cada mínima coisa. Como quantos carros correm por você, e como em cada carro há alguém, e cada alguém carrega uma vida inteira consigo. De repente são muitas pessoas. Muitas vidas. Muita energia rodando e rodando, e sua cabeça fica cheia disso tudo e dói insuportavelmente, para mostrar para você que é para parar de pensar. Mas adianta? É inconsciente. Você não está pensando em nada quando aperta o sinal para o ônibus parar e espera as portas se abrirem. Não pensa em nada, mas aí vem um cheiro de gozo que muda toda a sua percepção mental. Você começa a refletir de onde vem o cheiro, e a gripe não lhe deixa distinguir exatamente se de algum gozo mágico ou do abafado de uma chuva seca. Chega em casa com o corpo quente depois de ter andado muito e também não sabe se o calafrio vem da gripe ou do surrealismo. Nada faz sentido. Talvez só Buñuel fizesse sentido nesse exato momento. A metade da lua no céu, por que não fica inteira de uma vez? E aquela mancha escura atrapalhando a pureza do brilho dela, como somos capazes de enxergá-la? A lua está muito longe. E você mal distingue o rosto de alguém a cinco metros de distância se não usar óculos. Nada faz sentido. De repente as janelas dos prédios, com as luzes acesas e os ventiladores de teto girando, parecem que abrigam pessoas invisíveis. E essas janelas não são nada mais do que meros caixotes velhos que empacotam seres humanos, e do chão parece mesmo que não existem. É contraditório, porque há poucas horas sua cabeça não suportava pensar na imensidão de vidas que vivem no mesmo lugar. Mas como não enxergamos essa vasta teia de relações - oh, benção! - tudo parece estar impregnado de um profundo, melancólico e angustiante vazio. Alguma vez alguém escreveu a palavra vazio acompanhada de algum plácido adjetivo? Mas como esse é um daqueles dias, em que nada faz sentido, a única conclusão que se chega, ao fim do dia, é que aspirar o ar lá fora faz a mente ficar conturbada. Porque em cada partícula do ar há a partícula de alguém que morreu, e o tempo todo você respira ideias alheias, que entram em você e embaralham tudo o que você é. Quando se aspira o ar lá fora, você se torna outra pessoa...

domingo, 21 de outubro de 2012

ao meu avô, com o maior carinho do mundo

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Primeira e única foto do blog. Primeira vez que escreverei diretamente e tão sensivelmente exposta àquele que agora me olha, sorrindo, através de uma moldura pregada na parede: meu avô.
Esse pedaço de papel eu encontrei no meio de suas coisas. São uma série de números da loteria que ele apostava sempre, sem esquecer. Levo esse papel comigo, dobradinho, pra onde quer que eu vá e quando estou embaixo de uma árvore, sentada na grama, olhando para o céu e quero me lembrar dele, é só abrir o papel e contemplar.

Antes, eu chorava. A memória ainda era muito viva, o cheiro ainda muito presente, e bastava olhar para os números escritos que o coração me apertava no peito e as lágrimas corriam beirando ao escândalo. Conseguia imaginá-lo sentadinho na cadeira em frente à televisão muda, apoiado na mesa branca da cozinha, anotando com a mão um pouco trêmula os números da aposta. Observava detalhadamente: no quatro e o no cinco, a caneta perdeu o vigor; depois do oito, há um zero solitário, provavelmente se confundira; do dez ao quatorze, a mão está um pouco contida e não quer arquear os movimentos; do quinze em diante ele retoma a força nas mãos e tenta acertar a curva do cinco, o último número, sem correr o risco de virar um seis. Imaginar tudo isso me doía, porque eu conseguia vê-lo escrevendo delicadamente, sentia sua fragilidade. E sempre foi essa a impressão mais latente que eu guardei. Dava vontade de lhe dar um abraço e lhe afagar o ralo cabelo branco, tomar para mim um pouco do que ele tinha de vulnerável. Esse papel só faz guardar a sensação de um avô quebradiço: o mínimo sopro, e ele voaria com o vento. Um abraço talvez ajudasse a protegê-lo.

Antes de o vento o levar, e quando passei a vê-lo menos, eu conseguia visualizar claramente essa situação. Escrevendo um texto, remoendo a falta, tentando aliviar o peso de algum remorso da consciência, olhando o papel, e lembrando de tudo que havia de mais delicado nele. E foi o que acabou acontecendo, mesmo. O choro que veio foi um choro negativo, da ausência da presença, e pesava no espírito. Pesava no espírito meu e dele. Em mim, eu tinha que deixá-lo ir.

O papel, agora, me abre um sorriso no rosto. Os olhos riem, deliciam-se com a lembrança da visão daquele homem que fizesse chuva ou sol, usava o mesmo casaco cinza, tão aconchegante. Os números da loteria trazem tanta recordação quanto qualquer foto, mas essa é mais viva: vejo seus dedos se movendo. E quase posso tocar sua pele. A sua foto na parede, com o sorriso sereno, me acena calmamente que isso é possível.

O dia que o levei leve dentro de mim, sonhei com ele, pela primeira vez. Sinal de que já havia chegado onde deveria. Lia um jornal, de pernas cruzadas, e eu tirava a luva que vestia para sentir o calor daquela pele enrugada que minhas mãos conheciam. Ficava extasiadamente feliz, perguntava-lhe três ou quatro vezes se estava tudo bem. E sim, estava tudo bem, sorria ele.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

quando o criador encontra a criatura

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Isso merece ser escrito.

Na crônica "Por um desvio de interpretação", criei um imaginário em torno de um homem que cruzou meu caminho. Mas como todos os que têm sua presença nas linhas dos meus textos, acreditei que nunca mais o veria, que cairia na efemeridade de alguns encontros da vida.

Acontece que dia desses, voltando para casa, ele estava à minha frente, caminhando com o conhecido ruído metálico para a mesma direção que eu. Para o mesmo prédio, talvez? Tudo indicava que sim. Imediatamente me senti uma ladra, alguém que secretamente roubara uma intimidade mesmo que irreal de um indivíduo que agora não fazia ideia de um dia ter estado na mente de um desconhecido. Não tive coragem de entrar no mesmo elevador que o homem. E criar um estranhamento e um constrangimento que só eu sentiria? Havia a inegável sensação de já ser íntima, de ter adentrado num universo estritamente confidencial a meu bel prazer, renegando ao sujeito o direito de saber que virou uma crônica. Furtei qualquer coisa de único...

A saudação ficou entalada na garganta. Não consegui olhá-lo por muito tempo, muito menos encarar um boa tarde sem me sentir uma invasora, envergonhada. Portanto, tenha cuidado ao enfiar-se demais na realidade ilusória de um desconhecido: se encontrá-lo novamente, e a imersão ter sido profunda, é capaz de você se sentir um velho amigo, um terapeuta ou um deus, sem nunca ter sido absolutamente nenhum dos três...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

um desabafo, um devaneio e um sonho

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É raro eu escrever em primeira pessoa nesse blog. Normalmente meus personagens falam por mim, ou apenas os "eles" e "elas" gerais falam por qualquer um. E se há primeira pessoa, é mais na condição de personagem e menos como condição pessoal. Então por que de repente essa vontade da minha pessoalidade tão exposta? Não sei, mas desconfio que seja por angústia de uma falta de aproximação e intimidade com as pessoas, ou até por uma banalização dos assuntos, pela frivolidade das saudações de "bom dia, tudo bem?" de manhã, que de tão frívolo e automático não está preparado para as respostas verdadeiras a essa simples pergunta. E enquanto essa reconciliação com o social não ocorre, eu me volto exclusivamente ao meu blog hoje, em primeira pessoa. A sensação que eu tenho é a de estar orando em voz alta na igreja, e os que ali estiverem sentados também a rezar teriam o infortúnio de ouvir o que era para ser pessoal e íntimo, mas já não é mais.



Como alguém pode ter a lembrança daquilo que jamais viveu?

Esses dias peguei um bebê no colo. Estava deitada, e o bebê me veio nos braços; era uma tarde opaca, a cortina estava semicerrada e eu descansava em cima de um cobertor macio, numa malemolência gostosa. Aconcheguei o bebê entre meus braços e o deitei comigo. Ali, naqueles minutos em que estive junto dele antes de sua mãe aparecer e o levar, surrealmente me transportei para uma realidade que tive certeza que foi a minha em alguma outra vida, e que será novamente no futuro. Sentindo o cheiro de inocência dele, sua fragilidade e sua entrega total, eu me imaginei já na condição de mãe, com o meu filho aninhado nos meus braços exatamente como estava ali aquele bebê. Deitaríamos, e eu estaria cantarolando alguma música na mesma moleza da tarde tranquila, em uma casa sossegada, na beira de um morro ou em uma vila que dá para o mar. Os passarinhos seriam frequentes, e eu saberia distinguir o canto do pintassilgo do de uma andorinha, para cantar ao meu filho. O compasso da respiração seria o mesmo, e eu o embalaria no carinho até nós dois dormirmos juntos, na paz e na tranquilidade que seriam os dias. Ter a liberdade para descansar na simplicidade de um despropósito. Dormidinha de rede na varanda. O bebê no meu colo aquele dia me transportou para uma casinha em Portugal, ou na Itália, onde vivi, com meu filho deitado comigo na cama em cima de uma coberta macia. E que vou viver de novo, quando eu tiver meu filho, sair da metrópole e procurar a candura de um lugar calmo, do ladinho da natureza, para poder enfiar a mão na terra e sentir o cheiro do orvalho.

Não sei explicar como é a sensação de relembrar tudo o que senti naquele dia para escrever esse texto. É como se eu tivesse acessando mesmo uma lembrança vivida - a casinha sossegada na Itália e o meu filho deitado em meus braços - sem, no entanto, jamais ter vivido. Mas todas as emoções, as cores, a textura da pele do meu filho, o som da sua respiração, o seu olhar, e até mesmo a claridade do quarto surgiram instantaneamente na memória, como uma fotografia do que foi. Talvez uma mulher só descubra que deseja ser mãe quando pega um bebê no colo, sente seu cheiro e fecha os olhos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

o vinho e uma consideração final

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Ela deu o último gole na taça manchada de vinho. Os cabelos caíam já desgrenhados em ondas pelos ombros e elas os ajeitava enquanto se recostava na cadeira, pronta para o longo suspiro do fim da bebida. Dizia algo sobre um rapaz, uma paixão dela, que não andava dando certo. O vinho e a lembrança fizeram-lhe quente e com o rosto já vermelho e o suspiro já satisfeito, ela bradou a confissão do seu íntimo - que não conhece qualquer regra:

- E só ele chegar que minhas estrutura desmorona!

E o olhar vagou longe, longe do que é racional. Talvez devêssemos mesmo desmoronar por quem nos treme as pernas.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

o fim e o começo

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Lua alta, cheia e amarela, na altura das árvores mais distantes, só não beija o solo porque é privilégio do pôr do sol. Cabelos emaranhados e pretos, anda nua na grama fresca contando as estrelas do céu. Ouve alguém xingar ali perto, perde a conta, vai ver quem é e encontra Arthur Rimbaud deitado olhando para a lua. Reclama que dói os olhos de tão grande, e se grande de repente fossem os olhos? Aí a lua seria pequena e a dor menor ainda. Senta ao lado de Rimbaud, mas a grama faz a perna nua coçar, ninguém disse que a poesia não alivia mal algum. Rimbaud começa a conversar intimamente com o satélite em versos decassílabos, e como a perna coça insuportavelmente e teme mais ainda as formigas, ela se enche e volta a caminhar pela clareira da floresta. Está maldizendo o simbolismo dos franceses de cabelo comprido – a coceira é sinal de quê? – quando tropeça em algo caído no chão. É alguém. Fita o homem estendido no chão, pele vermelha de tão bronzeada, cabelos loiros sujos, ele resmunga “você me chutou, mas tudo bem, yeah, tem valium por aí?”, peito cortado, só pode ser Iggy Pop. O que Iggy Pop estaria fazendo deitado na floresta? “Está olhando a lua também?”, pergunta a de cabelos negros, “foda-se a lua, preciso de um pico”, ele nem abre os olhos. Ela diz que vai arranjar e some de fininho, não gostaria de vê-lo berrando Raw Power! em cima de sua nudez. Dessa vez melhor caminhar por entre as árvores. Pára na frente de uma árvore tão grande quanto todas as árvores juntas da floresta, o tronco tão grande quanto a lua. Daria pra entrar dentro dela e fazer uma festa com Rimbaud e Iggy Pop. Festa na árvore. Estava quase abrindo a porta do tronco da árvore quando sente um farfalhar de grama ao seu lado, ela se vira para ver quem chega mas a pessoa está envolta em uma aura ofuscantemente brilhante e não enxerga nada. O ser de luz coloca uma mão no ombro da mulher nua, sua aura se esvai e ela enfim consegue ver: Jesus Cristo. Assustada pela presença grandiosa, ela não diz nada, fecha os olhos e nesse instante ouve a voz de Jesus Cristo em sua mente: Continue a caminhar, pare à beira do abismo, e apague tudo o que escreveu; está pronta para iniciar sua nova fase que rascunha em seu espírito. A mulher nua absorve essas palavras, abre os olhos e só enxerga a relva verde, estendendo-se à sua frente. Põe-se a caminhar em direção à lua alta, cheia e amarela, e quase viram uma coisa só, pra quem vê de longe.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

poesia imprestável

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O sol nasce e inunda de uma luz brilhante a janela de seu quarto,
seus olhos se queimam assim que você os abre,
pois a perfeição é bela demais para ser vista...

sofre? não é perfeição, é cinismo,
você estava perdendo as esperanças na noite passada,
se revirou nos lençóis até pegar no sono,
horas antes do sol nascer.
ele nasce, e queima seus olhos.
e não há nada de reconfortante na risada celestial
da sua cara bestial
de quem acreditava no poeta que dizia que sol é alegria, alegria, gloriosa

que alegria?
é uma claridade, ofuscante
só pra te lembrar do que você não consegue esquecer.

domingo, 6 de maio de 2012

para um desconhecido

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É inquieta a sensação de ter te perdido de vez na infinitude de possibilidades nessa metrópole. Você, um completo desconhecido: nem cheguei a te conhecer. De você, ficou apenas a lembrança dos cabelos loiros e da pele branquíssima... Estava a centímetros de mim, por que não nos conhecemos? Vai que eu descubro que ouve Led Zeppelin, detesta macarrão e nunca corre quando toma chuva? Ou então que é surfista frustrado, amante de cinema e prefere Engels a Marx? Nunca irei saber. Muito menos seu cheiro, o som da voz, se canta nas letras ou se fala baixo, a cor dos seus olhos vistos bem de perto... Qual seu signo? Parece Áries, pelos ombros pesados e andar sonhador. Está vendo o que perdemos pela simples comunhão não aceita do silêncio? Poderíamos estar tomando um café.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

o gosto desmedido

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A hora que o trem passar, eu vou estar ali a milímetros do abismo da plataforma só pra sentir o frio de ansiedade e o vento nos cabelos e o corpo ameaçar ir para trás mas a força excitante do medo paralisá-lo na mesma posição cambaleante. E quando o trem abrir as portas, antes de entrar vou olhar o vão no chão e sentir aquela ansiedade novamente de quase cair no abismo e talvez até ameace um passo em falso pra fazer valer a pena entrar na locomotiva e sair da segurança estática da plataforma, sempre apática, sempre estática... E a loucura que corre pelos trilhos também corre no meu sangue e eu compartilho com você pelos poros cada vez que você me toca no exato instante em que morremos para renascermos logo em seguida, aliviados. A vida é um trem, um trem azul.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

sobre um sonho:

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Era o caos, a verdadeira desordem da existência. O asfalto rachava-se ao meio e era possível ver o magma da cor do inferno. As milhares de pessoas não seguiam mais as leis inconscientes, agora vagavam sem rumo e avançavam por lugares antes proibidos. O céu - não sei como era o céu - porque todos olhavam o chão, sempre tão resguardado e de repente tão exposto, aberto como uma ferida. Como eram as entranhas da Terra? Os que não tinham nada a perder tentavam ganhar: inúmeras barracas espalhadas ao longo das calçadas já quebradas, entupidas de pequenos produtos sem utilidade, ofertavam apenas no silêncio. Já não era preciso gritar, já não era preciso falar, era um desespero mudo. Como quando o medo cala a voz. E alguns tentavam levar aquele dia apocalíptico como se fosse apenas mais um dia comum. Era meu pai, que andava ao meu lado despreocupado e em paz, sem o anseio irracional do fim. Carregava três filmes clássicos em uma mão, "para vermos mais tarde", e com a outra me guiava por entre a multidão que não tinha nada de turista. Eu voltava os meus olhos desesperados e ele me devolvia os seus azuis calmos, por detrás dos óculos. E quando eu via o inferno debaixo da terra, eu apertava sua mão com força, e ele não me dizia nada porque não precisava ser dito...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ao Romantismo:

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Goethe, meu irmão. Nós, eternos apaixonados pela paixão. Não há de percebermos quão casto tornou-se esse insigne sentimento? Não, não há loucuras e nem mortes decretadas por amor, mas sim, antes de tudo, a maliciosa consciência a fazer-se de sábia ao resguardar os gestos. Que solene é este espetáculo! Vivemos entre os eruditos covardes, temerosos da dor, incapazes de se entregarem ao verdadeiro excesso, à verdadeira virtude que é amar. A dor, caríssimos, existe unicamente como condição por deleitar-se de algo tão puro e febril; ela é, portanto, estritamente necessária. Tal qual a morte que espreita uma abelha depois de sua reprodução; tal qual a vida, que nos permite sentir o dissabor do fim após décadas saboreando a existência. Jovem Werther, sofra. Não só porque do sofrimento vem a melhor escrita, mas porque é só através dele que podemos compreender quão humano fomos. Há de um dia os pobres mortais entenderem essa derradeira paixão que sentimos e, quem sabe então, o lídimo Romantismo deixe de ser palco de céticas risadas...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

notícia

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HOMEM PASMA SEGUNDA-FEIRA


Acordou, beijou a mulher na face rubra,
Deixou na caneca a marca da boca muda, comeu o pão adormecido,
Saiu de casa com a maleta cinza, o chapéu meio de lado, a barba por fazer.

Assoviou bossa-nova, a caminho do edifício,
Subiu no andaime, tão logo caiu
Segunda-feira, estatelado no asfalto, atrapalhou o trânsito,
Ainda acordou achando que era domingo.

Desde então, vive desorientado.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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