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terça-feira, 28 de julho de 2015

o mundo do conceito

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Vamos começar essa história falando de um jeito claro: João, nosso personagem, mora em um lugar medíocre, não importa se esse lugar é macro ou micro, é bairro cidade ou país. O julgamento de ser medíocre, porque afinal é um julgamento, não é subjetivo. Está evidente que João tem, para um jovem de sua idade, uma cabeça desordenada de informações circulantes e pipocantes de tudo o que forma as regras invisíveis do lugar onde mora, porque ele não é capaz de tomar uma decisão sozinho ou uma decisão que julga tomar sozinho. Vamos ver porquê.

Depois de uma jornada exaustiva de trabalho, João recebe seu salário, mas no dia seguinte acorda se perguntando se é aquilo mesmo que ele quer, trabalhar-dinheiro-trabalhar, porque ele observa os outros à sua volta e todos parecem estar ganhando dinheiro de um jeito bem legal. João assiste televisão e lê revistas e descobre que esses outros são chamados de “empreendedores” e são a nova onda do século. Os empreendedores aparecem bem nas fotos, alinhados e sorridentes, discorrendo sobre o novo aplicativo revolucionário (aspas aqui) que inventaram para os novos celulares quase robóticos e que, santa mãe, rendeu um milhão no primeiro ano. A TV e a revista exaltam. Quando João passeia pela internet no meio do seu trabalho durante o dia, todos os seus jovens amigos querem fazer o mesmo. Estão todos comentando as infelicidades de suas miseráveis vidas, e como poderiam todos estar fazendo outra coisa. Sempre qualquer coisa que não o que fazem agora. O futuro, para eles, é algo que se alcança somente se a felicidade e o prazer baterem à porta. Eles pensam que poderiam viajar pelo mundo inteiro, carregando apenas um celular e um computador com internet, e assim tudo pode acontecer. João não sabe o que sente. Afinal, se basta apenas um celular e um computador, por que ele e todos ainda não mudaram radicalmente suas vidas?

Sem saber o que sentir, João sai no seu horário de almoço procurando um lugar para comer. Está andando entre vários restaurantes, com uma fome desgraçada, e são todos muito agradáveis. João queria uma comida, mas se deteve em frente a um balcão que oferecia algo apetitoso: uma vida saudável. O balcão parecia oferecer diversas opções de refeição, mas João entendeu outra coisa. Entendeu que ali poderia comer sem culpa, tudo era livre de gorduras e calorias; poderia comer alimentos verdadeiramente orgânicos, escolhidos com cuidado por trabalhadores de uma cooperativa do interior do Estado, que trabalham seis horas por dia, com direitos de trabalhador, representatividade de sindicato e trator próprio. Almoçando ali, João comia também a bela arte do design de letras finas e cores divertidas dos títulos, o tratamento de imagem em cima dos milhos reluzentes e as sucintas frases motivadoras escritas na parede: “comer bem faz bem”, “aqui você pode comer sem culpa” e a clássica “sorria, você está levando uma vida saudável”. João não entendeu quem levou o julgamento de bom ou ruim também para o almoço. Mais do que não saber o que comer, João não sabia mais o que deveria comer.

Sem saber o que comer, decide voltar para casa. Tem um encontro com uma velha amiga. Sua amiga circulava por muitos grupos sociais e grupos de estudantes da sua faculdade. Ela chega à sua casa vestindo roupas de academia e uma camiseta com os dizeres “eu sou fitness” em letras verde limão. E já chega dizendo que ele está fora de forma, e que ela estava exatamente como ele, mas começou um ótimo treinamento, que aliás deve continuar para completar sua meta programada para o dia, portanto deveriam ir para o parque conversar. A sua meta só termina com o levantamento de vinte quilos em cada perna na academia ao lado de sua casa. E, é claro, tudo acompanhado de uma rígida dieta de calorias, jantares de caldo verde, sucos “detox” e sol de manhã, pois essa é a receita para ser feliz, conforme diz o casal de atores abraçados e alegres no painel com a marca da academia.
Os dois caminham pelo parque e um casal de meninas passa ao lado deles, de mãos dadas. João continua andando naturalmente, mas sua amiga sorri para o casal e faz um gesto de “paz e amor”. Depois comenta para o João: temos que respeitá-las, elas são minoria. João não entende o comportamento da amiga, pois João não viu um casal de minoria, viu apenas duas meninas juntas e isso não lhe trouxe nenhuma reação adversa. Sua amiga se enfurece e diz que por pensamentos machistas como esse é que o país não anda para frente. Sai bufando e começa a correr pelo parque, deixando João para trás, que está ainda sem entender por que foi tachado de um nome que sequer se aplica ao que ele é.


Sem ter mais com quem conversar, ele se senta em um banco do parque, desolado, aproveitando os últimos minutos do seu horário de almoço. Em resumo, não sabe o que deve fazer com a sua vida, o que deve comer, como deve cuidar do corpo e como deve se comportar socialmente perante todos os grupos. Está sentado olhando para o parque. Nesse momento, uma jovem garota senta-se em um banco em frente a João, procurando algo em sua bolsa. O cachorro que a acompanha na coleira também se senta, esperando a dona, e olha fixamente para João. João o observa, o pequeno cachorro da menina está vestindo uma saia rosa com um colete amarelo, na cabeça tem diversos penduricalhos presos ao pelo, inclusive uma estrelinha de bom cão colada na testa. Veste sapatinhos que parecem apertados. O cachorro olha para João com olhar de desespero, como se pedisse para tirá-lo dali de um mundo que criou um conceito para vestir o cachorro como gente. João olha para o cão com o mesmo olhar de desespero de quem está com a cabeça cheia de minhocas. 

sábado, 30 de maio de 2015

Lorival e Nelson

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Moravam os dois: Nelson, na cadeira de rodas, e seu amigo Lorival, o ajudante. O conjugado de número 43 na esquina com a mais famosa padaria era prático e objetivo: um sofá de dois lugares, uma televisão de tubo em cima de uma mesa de três pernas e um toco de madeira, um pano cinza cobrindo a claridade vinda da janela, um pequeno fogão ao lado de uma geladeira de dois terços da altura de Lorival, de cor azul bebê descascada e uma pia de mármore branco encardida. Comiam na sala. Lorival com o prato no colo e Nelson com uma pequena mesinha adaptada. É que não sentia as pernas.

No fundo, um banheiro apertado com ladrilhos dos anos 80 e um quarto com um armário e duas camas. A luz do quarto piscava porque a fiação estava comprometida e Lorival sempre se esquecia de arrumar. Por causa disso deixou de acender a luz do quarto, dizia que não era mais preciso, já que em frente à janela piscava um semáforo, o que o ajudava minimamente a enxergar o ambiente. Nelson gostava menos ainda dessa solução, pois dizia que o quarto ficava parecendo aposento de puta, que não é em si um grande problema, "o problema é que não há puta!".

Nelson perdeu a sensibilidade das pernas em um acidente literário. Lorival anda normalmente, mas é um pouco biruta, dizem. Nelson é a mente de Lorival e Lorival é as pernas de Nelson. O mutualismo já dura mais de 30 anos, embora a origem tenha se perdido nas poeiras do tempo. O que importa mesmo é que Nelson é escritor e Lorival jamais tira sua velha blusa furada de três cores - creme, marrom e mostarda. Leva a cadeira de rodas a passos lentos de quem já tem vasto cabelo branco e rugas pretéritas. O comum a ambos é uma touca de lã, que usam nesses dias de muito frio.

Lorival gosta de cinema e Nelson tem muito sono. Saíam cedo de casa para pegar a sessão das sete, em uma famosa Mostra de Cinema que acontecia na cidade. Os ingressos eram de graça, e o hall de entrada do cinema de rua lotava de iminentes jovens cineastas com muito a dizer sobre seus próprios filmes. Lorival geralmente estaciona Nelson em um canto onde não atrapalha ninguém; de costas para a rua, ao lado do balcão da cafeteria. Deixa-o ali enquanto esvazia o lixo de sua sacolinha a tiracolo, que leva a qualquer lugar, e que comumente tem o jornal do dia que Nelson adora ler. Livra-se de alguns pequenos papeis, experimentando todos os lixos diferentes do lugar, andando para lá e para cá com saciável curiosidade. Nelson fica. Tira do bolso o caderninho que usa para anotar suas frases literárias e observa o que já escreveu. Lorival vê um dos cineastas conversando com seus amigos críticos e senta-se ao seu lado para ouvir a conversa. "Acho que meu filme tem uma sensibilidade única, que poucos vão entender. Demoramos seis meses só para fazer a primeira cena". Lorival guarda a frase na cabeça para dizer a Nelson.

Lorival fica na fila do caixa, retira uma nota solta de dentro da calça e pede um saquinho de pão de queijo. Volta para seu amigo, cutuca seu braço e entrega os pães de queijo recém-saídos do forno. Nelson pega e não diz nada. Lorival agacha e pergunta "quer café?", Nelson diz que sim. Lorival volta à fila do caixa e compra um café, grande, que entrega ao seu amigo, depois volta novamente à fila e compra outro saquinho de pão de queijo para si. Deixa Nelson ali parado, comendo sozinho, e volta às suas andanças. Pergunta a algumas pessoas a hora, já está próximo da sessão. Vai à bilheteria pegar o bilhete de Nelson, entrega a ele e depois volta para pegar o seu. Entram na sessão, Lorival senta ao lado de Nelson e diz:

- O rapaz desse filme disse que a sua sensibilidade é única e que poucos vão entender.

Nelson bufa e não maneira a altura da voz naquela sala de cinema silenciosa:

- Que besteira que esses jovens pensam!

Alguns viram a cabeça para olhar de onde vem aquela voz e, sobretudo, a afirmação raivosa. Mas a penumbra não os deixa definir o rosto, e voltam a seus mundos um pouco mais seguros do que antes.
O filme começa, Lorival tenta prestar atenção, mas Nelson já caiu no sono e está roncando um pouco alto. A primeira cena, aquela que demorou seis meses para ser feita, não prende a atenção de Lorival, que deixa a sala com Nelson dormindo. Sabe-se lá por onde andou e quais outras conversas ouviu... Pouco antes de acabar o filme, Lorival volta à sessão para levar Nelson embora. Este, emburrado, não diz nada, mas escreve em seu caderninho.

Lá fora, vou ao ponto de ônibus e encontro Lorival e Nelson esperando a lotação. Digo que inventei uma vida inteira aos dois, dando-lhes nomes e endereço? Nelson se adianta e me diz com oratória de locutor:

- Deixa eu lhe dizer uma coisa, minha jovem, que pode ser muito útil. Recentemente, os franceses descobriram que repolho branco e agrião podem impedir o câncer de intestino, uma doença muito grave que chega a matar uma pessoa a cada cinco. Ouviu bem? Repolho branco e agrião. Essa notícia saiu em um jornal de pequena circulação e como é muito importante, estou lhe dizendo para que possa repassar a outras pessoas e evitar a incidência de câncer de intestino.


Agradeci a sua notícia e pouco depois seu ônibus chegou. Vi os dois embarcarem ainda em tempo de ouvir Nelson dizer: "amanhã tem que me levar para fazer a barba e o cabelo". Lorival acenou e a porta do ônibus fechou atrás de si.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

do destino de Cleópatra

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Cleópatra, vestida de linho quase transparente, não consegue dormir. Está em pé apoiada na janela, o chão frio sem tapetes, a noite fria sem acalento, a lamúria ao longe de dezenas de romanos embriagados e trôpegos na rua de pedras. Pensa em Júlio César, seu amante, seu amor, relembra quando ele estava em terras egípcias e partilhavam da paixão em território dela. Agora era ela que estava em território de Júlio César, ele é quem comandava e nenhuma de suas decisões até agora atenuara a angústia do coração de Cleópatra. Quando escolheria levar a vida ao lado daquela que diz ser sua mais completa mulher? Suas palavras feriam-na: "aguarde que tenho planos para nós", o guerreiro romano dizia, enquanto continuava a dormir no mesmo leito de sua esposa Calpúrnia. Esta era uma batalha que ele não ousava enfrentar.
Sem saber, a imagem que Cleópatra fazia, ali, parada à janela, de seu futuro junto a Júlio César, de uma nova nação comandada pelo filho herdeiro que criariam juntos, criara uma fina névoa de fumaça, que esticava-se pela noite e chegava até o coração de Júlio César, enquanto este dormia profundamente. Cleópatra ligou-os a um fino cordão de promessas, como perfume de incenso espalhando-se pelo ar, e a cada dia que perdia de sono e ganhava em suspiros e amores por Júlio César era mais nitidez e menos bruma ao seu ligamento etéreo. Uma rainha que deixou para trás seu reino e seu povo para atender a um chamado de Júlio César só pode mesmo viver por ele.
Naquela última noite, Calpúrnia teve um terrível sonho sobre o que aguardava o marido se ele fosse ao Senado. César pressentiu a mesma coisa. Como homem racional que era, não dado a mistificações e derrotas, foi ao Senado mesmo assim, deixando de lado a misteriosa e renegada intuição. Lá, entre dezenas de homens que juraram proteção e fidelidade ao Ditador romano mais divino, César encontrou sua morte pela sórdida faca de seus traidores, e seu sangue agora exposto jorrava pelas escadas. Não há nada de divino em um homem descendente de Vênus que sangra em solo político.
O fio que o ligara a Cleópatra rompeu-se, voltando a se dissolver pelo frio infinito. Não mais pulsaria entre dois corações, como um cordão umbilical sagrado que alimentasse o necessário aos dois espíritos. O elo continuaria sólido em Cleópatra, uma vez que ela estaria para sempre condenada a tê-lo somente nas lembranças, mas na outra ponta haveria o vazio, o vazio de uma vida que deixou de ser vivida. Nos céus, Júpiter estende os braços para Júlio César e na terra, Cleópatra abraça um corpo inerte.

sábado, 24 de novembro de 2012

um belo dia, o surrealismo

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Hoje é mais um daqueles dias. Você acorda e sente que giraram a chave da sua cabeça em "realidade" para "surrealismo". Nada faz sentido. Nem a coisa mais óbvia e banal do cotidiano faz sentido. E é como se tivessem lhe arrancado seus olhos para botarem no lugar os olhos de alguma águia, que encarapitada no alto do galho de uma árvore observa qualquer coisa se mexer. E agora a águia cedeu seus olhos para você ser capaz de observar o que ela observa. Você de repente se torna mais sensível a qualquer coisa que exista e que passe por você derramando água da beirada do asfalto. Tudo lhe incomoda, porque você é capaz de ouvir cada mínimo som, e sentir cada mínimo cheiro, e a pensar cada mínima coisa. Como quantos carros correm por você, e como em cada carro há alguém, e cada alguém carrega uma vida inteira consigo. De repente são muitas pessoas. Muitas vidas. Muita energia rodando e rodando, e sua cabeça fica cheia disso tudo e dói insuportavelmente, para mostrar para você que é para parar de pensar. Mas adianta? É inconsciente. Você não está pensando em nada quando aperta o sinal para o ônibus parar e espera as portas se abrirem. Não pensa em nada, mas aí vem um cheiro de gozo que muda toda a sua percepção mental. Você começa a refletir de onde vem o cheiro, e a gripe não lhe deixa distinguir exatamente se de algum gozo mágico ou do abafado de uma chuva seca. Chega em casa com o corpo quente depois de ter andado muito e também não sabe se o calafrio vem da gripe ou do surrealismo. Nada faz sentido. Talvez só Buñuel fizesse sentido nesse exato momento. A metade da lua no céu, por que não fica inteira de uma vez? E aquela mancha escura atrapalhando a pureza do brilho dela, como somos capazes de enxergá-la? A lua está muito longe. E você mal distingue o rosto de alguém a cinco metros de distância se não usar óculos. Nada faz sentido. De repente as janelas dos prédios, com as luzes acesas e os ventiladores de teto girando, parecem que abrigam pessoas invisíveis. E essas janelas não são nada mais do que meros caixotes velhos que empacotam seres humanos, e do chão parece mesmo que não existem. É contraditório, porque há poucas horas sua cabeça não suportava pensar na imensidão de vidas que vivem no mesmo lugar. Mas como não enxergamos essa vasta teia de relações - oh, benção! - tudo parece estar impregnado de um profundo, melancólico e angustiante vazio. Alguma vez alguém escreveu a palavra vazio acompanhada de algum plácido adjetivo? Mas como esse é um daqueles dias, em que nada faz sentido, a única conclusão que se chega, ao fim do dia, é que aspirar o ar lá fora faz a mente ficar conturbada. Porque em cada partícula do ar há a partícula de alguém que morreu, e o tempo todo você respira ideias alheias, que entram em você e embaralham tudo o que você é. Quando se aspira o ar lá fora, você se torna outra pessoa...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

um desabafo, um devaneio e um sonho

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É raro eu escrever em primeira pessoa nesse blog. Normalmente meus personagens falam por mim, ou apenas os "eles" e "elas" gerais falam por qualquer um. E se há primeira pessoa, é mais na condição de personagem e menos como condição pessoal. Então por que de repente essa vontade da minha pessoalidade tão exposta? Não sei, mas desconfio que seja por angústia de uma falta de aproximação e intimidade com as pessoas, ou até por uma banalização dos assuntos, pela frivolidade das saudações de "bom dia, tudo bem?" de manhã, que de tão frívolo e automático não está preparado para as respostas verdadeiras a essa simples pergunta. E enquanto essa reconciliação com o social não ocorre, eu me volto exclusivamente ao meu blog hoje, em primeira pessoa. A sensação que eu tenho é a de estar orando em voz alta na igreja, e os que ali estiverem sentados também a rezar teriam o infortúnio de ouvir o que era para ser pessoal e íntimo, mas já não é mais.



Como alguém pode ter a lembrança daquilo que jamais viveu?

Esses dias peguei um bebê no colo. Estava deitada, e o bebê me veio nos braços; era uma tarde opaca, a cortina estava semicerrada e eu descansava em cima de um cobertor macio, numa malemolência gostosa. Aconcheguei o bebê entre meus braços e o deitei comigo. Ali, naqueles minutos em que estive junto dele antes de sua mãe aparecer e o levar, surrealmente me transportei para uma realidade que tive certeza que foi a minha em alguma outra vida, e que será novamente no futuro. Sentindo o cheiro de inocência dele, sua fragilidade e sua entrega total, eu me imaginei já na condição de mãe, com o meu filho aninhado nos meus braços exatamente como estava ali aquele bebê. Deitaríamos, e eu estaria cantarolando alguma música na mesma moleza da tarde tranquila, em uma casa sossegada, na beira de um morro ou em uma vila que dá para o mar. Os passarinhos seriam frequentes, e eu saberia distinguir o canto do pintassilgo do de uma andorinha, para cantar ao meu filho. O compasso da respiração seria o mesmo, e eu o embalaria no carinho até nós dois dormirmos juntos, na paz e na tranquilidade que seriam os dias. Ter a liberdade para descansar na simplicidade de um despropósito. Dormidinha de rede na varanda. O bebê no meu colo aquele dia me transportou para uma casinha em Portugal, ou na Itália, onde vivi, com meu filho deitado comigo na cama em cima de uma coberta macia. E que vou viver de novo, quando eu tiver meu filho, sair da metrópole e procurar a candura de um lugar calmo, do ladinho da natureza, para poder enfiar a mão na terra e sentir o cheiro do orvalho.

Não sei explicar como é a sensação de relembrar tudo o que senti naquele dia para escrever esse texto. É como se eu tivesse acessando mesmo uma lembrança vivida - a casinha sossegada na Itália e o meu filho deitado em meus braços - sem, no entanto, jamais ter vivido. Mas todas as emoções, as cores, a textura da pele do meu filho, o som da sua respiração, o seu olhar, e até mesmo a claridade do quarto surgiram instantaneamente na memória, como uma fotografia do que foi. Talvez uma mulher só descubra que deseja ser mãe quando pega um bebê no colo, sente seu cheiro e fecha os olhos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

o vinho e uma consideração final

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Ela deu o último gole na taça manchada de vinho. Os cabelos caíam já desgrenhados em ondas pelos ombros e elas os ajeitava enquanto se recostava na cadeira, pronta para o longo suspiro do fim da bebida. Dizia algo sobre um rapaz, uma paixão dela, que não andava dando certo. O vinho e a lembrança fizeram-lhe quente e com o rosto já vermelho e o suspiro já satisfeito, ela bradou a confissão do seu íntimo - que não conhece qualquer regra:

- E só ele chegar que minhas estrutura desmorona!

E o olhar vagou longe, longe do que é racional. Talvez devêssemos mesmo desmoronar por quem nos treme as pernas.

sábado, 17 de março de 2012

foi cinematográfico

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À meia-luz não foi possível vislumbrá-la de todo, mas o andar vagaroso, a maneira delicada com que subiu as escadas sutilmente iluminadas do cinema e a pequena bolsa a tiracolo completaram a absoluta solidão daquela senhora. De certa forma, se estivesse acompanhada de alguma velha amiga e ambas subissem delicadas as escadas, seria um compasso em conjunto e a tristeza do isolamento já não teria mais evidência. Poderia se supor, logicamente, que a decisão de ir ao cinema e a compra dos ingressos não caberia apenas a uma pessoa, mas às duas amigas, que conversariam sérias na fila do guichê. Entretanto, eliminando-se a segunda pessoa da imaginária situação, o que sobrou à senhora é - e da qual não é possível fugir - a solidão, esta real, curiosamente chamativa quando ela subiu devagar as escadas daquele cinema. E quando as luzes acenderam, decretando o final do filme, foi a sua silhueta que partiu após os créditos, deixando atrás de si seu rastro de aura.




"O conceito benjaminiano de aura designa o fascínio concentrado e melancólico que determinada coisa assume no instante do seu desaparecimento".

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

vira, Edmundo

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Edmundo animal, bêbado como um cachorro no banco da Rua Direita. Ele e o outro, pondo-se a brincadeiras de músicas, cada qual olhando para cima sem lembrar-se de nenhuma. “Como é aquela mesmo? Ta na na nan” e com o corpo deu um floreio, tentando fazer o ritmo da bateria. O outro negou, o floreio não era daquele jeito, talvez menos curvo, assim. Os dois rodando no ar, unicamente para trazerem à memória a primeira palavra que evocasse a bendita música, os dois enérgicos, adeptos da filosofia de que o movimento aviva as recordações; foram tachados de loucos pela senhora que passou no outro lado da calçada carregando as compras do mercado.

Eram loucos? Outro dia Edmundo subiu ao ônibus de barba feita, cabelo lavado e calça nova. Não perguntei se era uma ocasião solene, visto que trazia as duas mãos postas calmamente no colo em caráter sério. Última vez fora visto bêbado como um cachorro no banco da Rua Direita, com o outro. Mas deram-lhe um sossego, afinal, era Carnaval.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

seis e meia

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Nesses dias em que a tarde parece que posa com volúpia, só pedindo para ser fotografada, insinuando-se mais e mais a cada minuto que passa. E não há uma câmera, há apenas palavras. Mas não parece ser suficiente, e então a tarde se fecha num breu, ressentida.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

notícia

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HOMEM PASMA SEGUNDA-FEIRA


Acordou, beijou a mulher na face rubra,
Deixou na caneca a marca da boca muda, comeu o pão adormecido,
Saiu de casa com a maleta cinza, o chapéu meio de lado, a barba por fazer.

Assoviou bossa-nova, a caminho do edifício,
Subiu no andaime, tão logo caiu
Segunda-feira, estatelado no asfalto, atrapalhou o trânsito,
Ainda acordou achando que era domingo.

Desde então, vive desorientado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sonhos em um dia de verão

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Era um fim de tarde, tempo fechado, restos de chuva pelo asfalto. Ainda dava pra sentir o cheiro de grama molhada e o céu clareava um amarelo escondido. Itália. Faltava era um violino, chapéus, mesas de café pelas calçadas, italianas e seus vestidos, acompanhadas de homens altos. Depois, virando a esquina, o claro do céu já estava escuro, cinza, as nuvens fechadas torcendo algumas últimas gotas. Inglaterra. Faltava eram cachecóis, luvas nas mãos a segurarem um copo quente de chocolate, risadas sobre uma varanda de frente para a metrópole. Mais adiante, o dia foi cedendo já seu lugar à noite, a chuva se esgotava de tanto molhar e a brisa ia surgindo fresca, com as nuvens adormecidas. Espanha. Faltava era um restaurante decorado com velas, fonte no meio de uma pracinha com casais se divertindo solitários, vendedores com suas frutas e peixes frescos.

Aí a noite pintou tudo de preto, a lua não surgiu e o que faltava era voltar caminhando para a casa com passadas lentas de quem precisa tragar tudo uma última vez antes de parar de sonhar.

domingo, 24 de julho de 2011

o nó de cada dia

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É um desejo de negar tudo e voltar ao estado primitivo da consciência.

É um pessimismo que alimenta quase como o sangue te faz vivo. Um pessimismo não de viver, mas da vida como se faz até aqui.

A vida dos chicletes, pequenas gomas de petróleo que alimentam os olhos e ocupam a boca, esta mesma, que se preocupa em mascar corantes e não soltar palavras. Essa vida que virou a dos grandes capitais - vilões ou mocinhos? - felizes por nos brindar com um copo de café com açúcar branco logo de manhã. Branco por estética: a criação da noção de pureza com soda cáustica. Um verso como este parecido com uma notícia dos telejornais. Frases curtas, ponto final aqui, dois pontos ali. Afinal, o cachorro da titia também precisa entender o noticiário.
O ser vivo moderno é empregado se pagou para outros lhe ensinarem coisas que poderia aprender sozinho. Mas autodidata - o que é autodidata? - é uma palavra quase extinta do vocabulário daqueles que estão atrás das mesas de mogno. O ser vivo é pago para dizer que uma planta não é um outro ser vivo - curiosamente semelhante - mas um combustível, um alimento para seus grandes filhos de aço, tão crianças que cospem os restos no céu.

Livros de monges, histórias de Jesus e canções natalinas são última tendência. Evocam lá no fundo aquele sonho lúdico, já empoeirado, de belas montanhas, casinhas de madeira e existência pacífica. Fios, aço, ferro, fibra ótica, álcool, petróleo, glutamato de sódio são palavras que você queria esquecer para sempre.
Sabe o impossível? Ele existe. Ele existe, e vive dentro de mim.

terça-feira, 14 de junho de 2011

século XXI

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O oxigênio estava insuficiente nas suas células quando acordou com ácido lático nas fibras musculares. Dores nos músculos. Correndo, foi para o armário novo com cheiro de tinta tomar um remédio. Apnoprastil, princípio ativo diretamente absorvido pelo organismo em alguns poucos minutos. Logo a corrente sanguínea carregaria o CG-T, que inibiria suas dores e assim ela poderia ir para o trabalho sem se preocupar.

Comeu uma maçã no espaço de tempo entre trocar de roupa e abrir a porta de casa, enquanto chamava o elevador e procurava a chave do carro, tudo ao mesmo tempo. Adrenalina corria pelo sangue enquanto tentava absorver o remédio e se reorganizar para poder quebrar as pontes de hidrogênio dos ácidos ribonucléicos da maçã. Mas ela em nenhum momento pensou em tudo isso: só queria era chegar no estacionamento.

Era muito cedo ainda para seu organismo processar essa grande quantidade de informações e poder mandar seus alertas rotineiros. Dessa forma, ela ligou o rádio para ouvir uma música enquanto passava batom no trânsito congestionado. Seus ouvidos captavam a música e seu cérebro se dividia em manter a atenção no movimento do carro à frente, demarcar a linha imaginária até onde o batom deveria ser pintado e processar os pensamentos frenéticos dela à respeito do seu atraso no trabalho.

O carro à frente andou, ela não viu, o carro de trás buzinou. Seu cérebro guinou para voltar a manter a atenção nos três fatores, agora com mais alguns em jogo, já que os carros começavam a andar. Acelerador, freio, câmbio, retrovisor. Para aumentar a carga de trabalho do cérebro, as células do corpo já estavam absorvendo o remédio e seus impulsos sendo mandados para o comando central. Que, sobrecarregado de tanta
tarefa, ainda tinha que desligar alguns neurônios responsáveis pelas dores nos músculos.

Chegou ao trabalho atrasada quase meia hora. Seu chefe gritou. As ondas mecânicas do som passaram pelo labirinto e chegaram até o cérebro, onde foram processadas com um alto grau de decibéis. Era demais, era muito, não ia aguentar. Então seu organismo deu seu primeiro sinal: tanta contração muscular começou a causar uma pressão em ambos os lados da cabeça.

- Ah, merda, mais essa agora. Aposto que foi aquela merda de trânsito. Alguém tem aspirina?


E mais um remédio entrou para seu organismo.








obs.: os fatos biológicos (que provavelmente não estão em conformidade com a realidade) serviram apenas de ilustração para essa história. Óbvio.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

por um desvio de interpretação

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A perna esquerda toda lhe doía a cada momento que pisava com um ruído metálico no chão. Andava arrastando-a, puxando a calça para tentar uma mobilidade maior, talvez até ganhar uma certa velocidade. Por que essa é a grande palavra, né? Todos ao seu redor caminhavam a passos rápidos, a qualquer hora; e ele sempre atrás, lento, arrastado. Não se importava com isso conscientemente, mas sua mente sim. Sentia-se atrasado e inútil, então tentava arrastar sua perna cada vez mais forte, mesmo que doesse. E ah, doía. Doía porque não era uma perna, era uma barra de ferro. O corpo não foi feito para andar em uma barra de ferro. Mas tinha que andar, tinha que correr, porque morava em uma cidade onde ficar para trás era arcaico.

Chegava em casa desgastado. De cansaço físico e mental; físico pela correria e mental porque era um exercício pessoal sair na rua todo dia e agüentar os olhares assustados. Achava que tinha superado isso, todos acham quando vêem um homem de quase quarenta anos arrastando uma perna metálica. Mas só ele sabe que nunca vai superar. Nunca vai superar porque as pessoas vão continuar a tratá-lo fingindo que esse problema não existe, o que para ele era muito pior do que de fato considerá-lo. Ninguém perguntava se precisava de ajuda. Olá, estou arrastando minha perna em um dia de chuva e molhando metade do meu corpo, poderia me ajudar? Ninguém. O que raios as pessoas pensavam? Ele não se sentiria envergonhado por tentarem ajudar. Porque ele, visivelmente, precisava de ajuda.

E achava o papo de superação um discurso de fácil resultado na boca de homens inteiros. Ele era metade, sem uma perna e consumido pela amargura. Não via por quê isso deveria ser normal. Não via por quê tinha que encarar naturalmente. Não conseguia. Se sentia catalogado na categoria de deficiente, palavra que remetia à ineficiência. Ele era ineficiente? Só porque demorava para andar e não era compatível com a imagem perfeita vendida pelas propagandas?

É, se sentia mal. Mas mal sinto eu, por tomar as dores desse homem que encontrei no meu caminho e escrever essa pequena crônica, como se o desabafo fosse dele mesmo. Tudo isso acabou sendo a perna metálica da minha própria mente, que anseia por se exibir através de verbos em terceira pessoa, pessoas estas que muitas vezes são reais. Não sou poeta, deixo a mente trabalhar cambaleante, do jeito que consegue. É na impulsividade que tudo surge.

domingo, 27 de março de 2011

vadiagem

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É noite e a sarjeta cheira a lixo.
Lixo, cigarro e espetinho de carne.
Você nunca deseja fazer parte disso tudo, mas sem querer, isso se torna parte de você.
A prostituta que não sente frio na esquina, o dono da barraquinha velha e suja de pastel, o cobrador do ônibus que circula a uma da manhã, nenhum desses indivíduos renegados é diferente de você ou do engravatado desinteressante com quem dividimos o mesmo meio-fio todos os dias de manhã.

Amarguradamente, segurando-se onde quer que valha para não cair com as curvas do ônibus. Uma mão que encosta, um cabelo que esvoaça e você se afasta, como que contaminado. Rejeitar o toque faz parte do seu dia, como se já não importasse também suas passadas largas de quem vai e não sabe pra onde, sua cara fechada como se o sol lhe batesse constantemente nos olhos mesmo à noite ou seu bom dia contido pela manhã.

E é pensando nisso tudo que volta para a casa de madrugada. Não importa a hora, a vida imunda ainda pulsa pelos becos, fétida, com suas mil promessas vãs de liberdade fugidia.
A noite é o mundo dos rejeitados.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

criancice

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A menina era menina e brincava com seus bonecos em uma bagunça pela cama de visitas. Estava sozinha em casa e, naturalmente, não esperava por ninguém a não ser seus pais, que voltariam do trabalho em breve.

Sendo menina, naturalmente também que não se importava com bagunças. Pelo contrário, era a necessidade básica de qualquer criança. E para se brincar do jeito que brincava, tinha que ser com tudo espalhado pela cama. A de visitas.

Até que o interfone tocou e tirou-a de sua concentração. Parou de brincar. Quem era? Tentou se lembrar, mas realmente não esperava ninguém. Foi atender.

- Quem é?

- Oi, Ana? É a Flávia!

- Oi!... - quem?

- Eu sou uma prima da sua mãe, aproveitei que estou por aqui para visitar vocês!

- Ahhh, sim, sim, tudo bem? - de fato nem lembrava dessa prima da sua mãe. Mas a mulher tinha uma voz calma. - Então, minha mãe ainda não chegou, mas você quer entrar, aí você espera ela?

- Pode ser então!

- Tá, vou abrir a porta.

Apertou o botão do interfone e ficou esperando a Flávia na porta. Ela chegou e abriu um sorriso:

- Oi Aninha! Como você cresceu! - e estendeu os braços esperando um abraço.

Ana estacou. Flávia era linda. Adulta, morena, toda educada e delicada. Enquanto ela, uma criança, toda suja de brincar e com roupa de ficar em casa. Sentiu-se envergonhada. Mas foi dar um abraço na prima da mãe.

- Você está sozinha aqui? O que está fazendo?

- Eu tava brincando no meu quarto...

- Ah, que legal. Posso ver?

Ih, a bagunça. Que vergonha deixar a moça bonita ver tudo aquilo esparramado pela cama, o que ela ia pensar, que era uma criança?

Bom, ela era uma criança. Mas não queria ser, não depois de ter visto a moça, queria ser igual a ela. Porque a moça não era menina, era moça.

- Pode sim, mas você espera só um pouquinho que eu tenho que arrumar uma coisinha? Já que eu te chamo.

Flávia deu uma risadinha.

- Tudo bem, eu espero.

Ana foi afoita pensando em como se livrar da baderna. Não tinha como guardar tudo, ia levar muito tempo e é falta de educação deixar a Flávia assim, esperando sozinha na sala. Foi no armário e pegou um lençol. Pronto, cubro tudo, pensou. Cobriu qualquer vestígio de brinquedo e deixou ali, um monte evidente de bonecos escondidos, ocultos como se fossem provas de um crime.

- Pronto, pode entrar!

E quando FLávia entrou, logo entendeu. Viu o monte na cama e o resto do quarto todo arrumado e deu um sorriso. Também foi criança, entendia dessas coisas. Mas Ana, não. Para Ana, a moça não era menina, era moça. E queria ser igual a ela.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"a vida é um jogo"

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O menino estava parado no corredor, com os olhos vidrados. Aos poucos foram juntando lágrimas. Seus joelhos tremendo, os braços fracos. Andou pelas lojas novamente para procurar melhor. Nada. Sentou no banco da galeria e ali ficou, de cabeça baixa, chorando baixinho, para ninguém perceber. Tinha medo de gente grande.

Uma garota viu o menino lá, já há um tempo, sozinho, de cabeça baixa. Viu que ele entrava nas lojas e voltava para o banco, várias vezes. Decidiu ir conversar com o garoto.

- Oi. O que aconteceu? Eu vi que você entrou nas lojas procurando alguma coisa...

O menino levantou os olhos vermelhos de choro.

- Perdi minha mãe.

A garota ficou com olhos de pena.

- Ah...mas você vai achar sua mãe, você vai ver.

Ele pensou que nunca mais veria sua mãe.

- Ela vai voltar aqui para te procurar, fica calmo.

Ele pensou em como voltaria para casa.

- Posso fazer companhia para você até sua mãe chegar?

Ele acenou que sim. E pensou quão longe sua mãe deveria estar.

- Não precisa ficar assim, vai ver como vai ficar tudo bem.

Ele pensou quanto tempo teria que esperar.

- Então...qual seu nome?

Ele pensou na sua mãe chamando seu nome.

- Rafael.

- Ah, que legal. Quantos anos você tem, Rafael?

Ele pensou no seu bolo de aniversário com a vela 8.

- Oito anos.

- Oito anos...já é um rapazinho hein? E o que gosta de fazer?

Ele pensou nos seus amigos jogando videogame. E deu um sorriso. O Neto jogava muito mal, nunca conseguia passar aquela fase.

- Eu gosto de jogar videogame com meus amigos.

- E você joga bem?

Ele se lembrou quando venceu a última fase do jogo, seus amigos nunca conseguiram.

- Eu jogo. Consegui vencer a última fase, sabia? Era difícil.

- Uau. Então pensa que você está num videogame. Sua mãe é o chefão. O chefão sempre encontra com o mocinho no jogo não é? Então. Sua mãe vai vir te encontrar.

Ele pensou que essa garota era legal. Depois se lembrou que tinha um maço de cartas no bolso.

- Olha o que eu tenho aqui, trouxe meu baralho. Quer jogar?

- Vamos jogar!

Ficaram no banco, jogando cartas. Uma mulher gritou:

- Alguém sabe do meu filho? Tô procurando meu filho!

O menino reconheceu a voz da mãe. Achou a mãe! Aliviado, foi correndo abraçá-la. A mãe, uma mulher grande e nervosa, bufou de raiva. Pegou o menino pelo braço, deu um tapa.

- Não separa mais de mim, Rafael! Onde já se viu! Procurei que nem doida atrás de você, menino.

Foram embora, com o menino assustado. A garota ficou perplexa. A mãe era mesmo o chefão.
 

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