eu sinto uma falta desgraçada desse blog.
das pessoas aleatórias que vira e mexe caíam aqui e deixavam pegadas em forma de mensagens,
do costume de se ler blogs do blogspot.com,
do costume de se escrever para um blog, assim, desinteressadamente, e conhecer algumas pessoas legais por aí.
não vou me estender falando do zeitgeist, e do tempo que passa, e de como tudo está hoje, vou só dizer:
que o lacrônico está de domínio novo lá no
www.lacronico.wordpress.com
quem for, que vá curioso, porque é a alma de todo esse negócio chamado viver.
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terça-feira, 28 de julho de 2015
o mundo do conceito
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Escrito -
Tais G. Faraco
Vamos começar essa história falando de um jeito claro: João,
nosso personagem, mora em um lugar medíocre, não importa se esse lugar é macro
ou micro, é bairro cidade ou país. O julgamento de ser medíocre, porque afinal
é um julgamento, não é subjetivo. Está evidente que João tem, para um jovem de sua
idade, uma cabeça desordenada de informações circulantes e pipocantes de tudo o
que forma as regras invisíveis do lugar onde mora, porque ele não é capaz de
tomar uma decisão sozinho ou uma decisão que julga tomar sozinho. Vamos ver
porquê.
Depois de uma jornada exaustiva de trabalho, João recebe seu
salário, mas no dia seguinte acorda se perguntando se é aquilo mesmo que ele
quer, trabalhar-dinheiro-trabalhar, porque ele observa os outros à sua volta e
todos parecem estar ganhando dinheiro de um jeito bem legal. João assiste
televisão e lê revistas e descobre que esses outros são chamados de
“empreendedores” e são a nova onda do século. Os empreendedores aparecem bem
nas fotos, alinhados e sorridentes, discorrendo sobre o novo aplicativo
revolucionário (aspas aqui) que inventaram para os novos celulares quase
robóticos e que, santa mãe, rendeu um milhão no primeiro ano. A TV e a revista
exaltam. Quando João passeia pela internet no meio do seu trabalho durante o
dia, todos os seus jovens amigos querem fazer o mesmo. Estão todos comentando
as infelicidades de suas miseráveis vidas, e como poderiam todos estar fazendo
outra coisa. Sempre qualquer coisa que não o que fazem agora. O futuro, para
eles, é algo que se alcança somente se a felicidade e o prazer baterem à porta.
Eles pensam que poderiam viajar pelo mundo inteiro, carregando apenas um
celular e um computador com internet, e assim tudo pode acontecer. João não
sabe o que sente. Afinal, se basta apenas um celular e um computador, por que
ele e todos ainda não mudaram radicalmente suas vidas?
Sem saber o que sentir, João sai no seu horário de almoço
procurando um lugar para comer. Está andando entre vários restaurantes, com uma
fome desgraçada, e são todos muito agradáveis. João queria uma comida, mas se
deteve em frente a um balcão que oferecia algo apetitoso: uma vida saudável. O
balcão parecia oferecer diversas
opções de refeição, mas João entendeu outra coisa. Entendeu que ali poderia
comer sem culpa, tudo era livre de gorduras e calorias; poderia comer alimentos
verdadeiramente orgânicos, escolhidos com cuidado por trabalhadores de uma
cooperativa do interior do Estado, que trabalham seis horas por dia, com
direitos de trabalhador, representatividade de sindicato e trator próprio.
Almoçando ali, João comia também a bela arte do design de letras finas e cores
divertidas dos títulos, o tratamento de imagem em cima dos milhos reluzentes e as
sucintas frases motivadoras escritas na parede: “comer bem faz bem”, “aqui você
pode comer sem culpa” e a clássica “sorria, você está levando uma vida saudável”.
João não entendeu quem levou o julgamento de bom ou ruim também para o almoço.
Mais do que não saber o que comer, João não sabia mais o que deveria comer.
Sem saber o que comer, decide voltar para casa. Tem um
encontro com uma velha amiga. Sua amiga circulava por muitos grupos sociais e grupos
de estudantes da sua faculdade. Ela chega à sua casa vestindo roupas de
academia e uma camiseta com os dizeres “eu sou fitness” em letras verde limão.
E já chega dizendo que ele está fora de forma, e que ela estava exatamente como
ele, mas começou um ótimo treinamento, que aliás deve continuar para completar
sua meta programada para o dia, portanto deveriam ir para o parque conversar. A
sua meta só termina com o levantamento de vinte quilos em cada perna na
academia ao lado de sua casa. E, é claro, tudo acompanhado de uma rígida dieta
de calorias, jantares de caldo verde, sucos “detox” e sol de manhã, pois essa é
a receita para ser feliz, conforme diz o casal de atores abraçados e alegres no
painel com a marca da academia.
Os dois caminham pelo parque e um casal de meninas passa ao
lado deles, de mãos dadas. João continua andando naturalmente, mas sua amiga
sorri para o casal e faz um gesto de “paz e amor”. Depois comenta para o João:
temos que respeitá-las, elas são minoria. João não entende o comportamento da
amiga, pois João não viu um casal de minoria, viu apenas duas meninas juntas e
isso não lhe trouxe nenhuma reação adversa. Sua amiga se enfurece e diz que por
pensamentos machistas como esse é que o país não anda para frente. Sai bufando
e começa a correr pelo parque, deixando João para trás, que está ainda sem
entender por que foi tachado de um nome que sequer se aplica ao que ele é.
Sem ter mais com quem conversar, ele se senta em um banco do
parque, desolado, aproveitando os últimos minutos do seu horário de almoço. Em
resumo, não sabe o que deve fazer com a sua vida, o que deve comer, como deve
cuidar do corpo e como deve se comportar socialmente perante todos os grupos.
Está sentado olhando para o parque. Nesse momento, uma jovem garota senta-se em
um banco em frente a João, procurando algo em sua bolsa. O cachorro que a
acompanha na coleira também se senta, esperando a dona, e olha fixamente para
João. João o observa, o pequeno cachorro da menina está vestindo uma saia rosa
com um colete amarelo, na cabeça tem diversos penduricalhos presos ao pelo,
inclusive uma estrelinha de bom cão colada na testa. Veste sapatinhos que parecem
apertados. O cachorro olha para João com olhar de desespero, como se pedisse
para tirá-lo dali de um mundo que criou um conceito para vestir o cachorro como
gente. João olha para o cão com o mesmo olhar de desespero de quem está com a
cabeça cheia de minhocas.
sábado, 30 de maio de 2015
Lorival e Nelson
1 opiniões
Escrito -
Tais G. Faraco
Moravam os dois: Nelson, na cadeira de rodas, e seu amigo
Lorival, o ajudante. O conjugado de número 43 na esquina com a mais famosa
padaria era prático e objetivo: um sofá de dois lugares, uma televisão de tubo
em cima de uma mesa de três pernas e um toco de madeira, um pano cinza cobrindo
a claridade vinda da janela, um pequeno fogão ao lado de uma geladeira de dois
terços da altura de Lorival, de cor azul bebê descascada e uma pia de mármore
branco encardida. Comiam na sala. Lorival com o prato no colo e Nelson com uma
pequena mesinha adaptada. É que não sentia as pernas.
No fundo, um banheiro apertado com ladrilhos dos anos 80 e
um quarto com um armário e duas camas. A luz do quarto piscava porque a fiação
estava comprometida e Lorival sempre se esquecia de arrumar. Por causa disso
deixou de acender a luz do quarto, dizia que não era mais preciso, já que em
frente à janela piscava um semáforo, o que o ajudava minimamente a enxergar o
ambiente. Nelson gostava menos ainda dessa solução, pois dizia que o quarto
ficava parecendo aposento de
puta, que não é em si um grande problema, "o problema é que não há
puta!".
Nelson perdeu a sensibilidade das pernas em um acidente
literário. Lorival anda normalmente, mas é um pouco biruta, dizem. Nelson é a
mente de Lorival e Lorival é as pernas de Nelson. O mutualismo já dura mais de 30
anos, embora a origem tenha se perdido nas poeiras do tempo. O que importa
mesmo é que Nelson é escritor e Lorival jamais tira sua velha blusa furada de
três cores - creme, marrom e mostarda. Leva a cadeira de rodas a passos lentos
de quem já tem vasto cabelo branco e rugas pretéritas. O comum a ambos é uma
touca de lã, que usam nesses dias de muito frio.
Lorival gosta de cinema e Nelson tem muito sono. Saíam cedo
de casa para pegar a sessão das sete, em uma famosa Mostra de Cinema que
acontecia na cidade. Os ingressos eram de graça, e o hall de entrada do cinema
de rua lotava de iminentes jovens cineastas com muito a dizer sobre seus
próprios filmes. Lorival geralmente estaciona Nelson em um canto onde não
atrapalha ninguém; de costas para a rua, ao lado do balcão da cafeteria.
Deixa-o ali enquanto esvazia o lixo de sua sacolinha a tiracolo, que leva a
qualquer lugar, e que comumente tem o jornal do dia que Nelson adora ler.
Livra-se de alguns pequenos papeis, experimentando todos os lixos diferentes do
lugar, andando para lá e para cá com saciável curiosidade. Nelson fica. Tira do
bolso o caderninho que usa para anotar suas frases literárias e observa o que
já escreveu. Lorival vê um dos cineastas conversando com seus amigos críticos e
senta-se ao seu lado para ouvir a conversa. "Acho que meu filme tem uma
sensibilidade única, que poucos vão entender. Demoramos seis meses só para
fazer a primeira cena". Lorival guarda a frase na cabeça para dizer a
Nelson.
Lorival fica na fila do caixa, retira uma nota solta de
dentro da calça e pede um saquinho de pão de queijo. Volta para seu amigo,
cutuca seu braço e entrega os pães de queijo recém-saídos do forno. Nelson pega
e não diz nada. Lorival agacha e pergunta "quer café?", Nelson diz
que sim. Lorival volta à fila do caixa e compra um café, grande, que entrega ao
seu amigo, depois volta novamente à fila e compra outro saquinho de pão de
queijo para si. Deixa Nelson ali parado, comendo sozinho, e volta às suas
andanças. Pergunta a algumas pessoas a hora, já está próximo da sessão. Vai à
bilheteria pegar o bilhete de Nelson, entrega a ele e depois volta para pegar o
seu. Entram na sessão, Lorival senta ao lado de Nelson e diz:
- O rapaz desse filme disse que a sua sensibilidade é única
e que poucos vão entender.
Nelson bufa e não maneira a altura da voz naquela sala de
cinema silenciosa:
- Que besteira que esses jovens pensam!
Alguns viram a cabeça para olhar de onde vem aquela voz e,
sobretudo, a afirmação raivosa. Mas a penumbra não os deixa definir o rosto, e
voltam a seus mundos um pouco mais seguros do que antes.
O filme começa, Lorival tenta prestar atenção, mas Nelson
já caiu no sono e está roncando um pouco alto. A primeira cena, aquela que
demorou seis meses para ser feita, não prende a atenção de Lorival, que deixa a
sala com Nelson dormindo. Sabe-se lá por onde andou e quais outras conversas
ouviu... Pouco antes de acabar o filme, Lorival volta à sessão para levar
Nelson embora. Este, emburrado, não diz nada, mas escreve em seu caderninho.
Lá fora, vou ao ponto de ônibus e encontro Lorival e Nelson
esperando a lotação. Digo que inventei uma vida inteira aos dois, dando-lhes
nomes e endereço? Nelson se adianta e me diz com oratória de locutor:
- Deixa eu lhe dizer uma coisa, minha jovem, que pode ser
muito útil. Recentemente, os franceses descobriram que repolho branco e agrião
podem impedir o câncer de intestino, uma doença muito grave que chega a matar
uma pessoa a cada cinco. Ouviu bem? Repolho branco e agrião. Essa notícia saiu
em um jornal de pequena circulação e como é muito importante, estou lhe dizendo
para que possa repassar a outras pessoas e evitar a incidência de câncer de
intestino.
Agradeci a sua notícia e pouco depois seu ônibus chegou. Vi
os dois embarcarem ainda em tempo de ouvir Nelson dizer: "amanhã tem que
me levar para fazer a barba e o cabelo". Lorival acenou e a porta do
ônibus fechou atrás de si.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
uma clarideia
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Escrito -
Tais G. Faraco
acho que a maior percepção que alguém pode ter sobre a vida
e uma das mais leves
é compreender que tudo, tudo, é discurso, construção social, significação humana.
ao universo cabe apenas a nossa existência, a constituição biológica
e isso me faz pensar naqueles que aplaudem o pôr-do-sol
não há nada de errado no pôr-do-sol
e nem no nascer do sol
e nem nos que aplaudem, seja o que for
mas isso me lembra uma música:
you realize
the sun doesn't go down
it's just an illusion caused
by the world
spinning round*
se os que aplaudem o por-do-sol aplaudem uma causa física
normal, sem qualquer sentido embutido,
executada desde o começo dos tempos
também deveriam aplaudir as marés,
a lua crescente,
os solstícios e os equinócios
os terremotos
assim como o movimento de translação
mas eles não aplaudem uma causa física
aplaudem um sentido social construído
de serem felizes,
de serem aceitos,
de acreditarem na beleza,
de acreditarem que são seres abençoados.
e aí então não há dúvidas: vivemos em ilusão.
*do you realize?, the flaming lips
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
a grande garantia para o homem foi ter descoberto o amanhã
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Escrito -
Tais G. Faraco
Olha para o relógio pelo menos
três vezes. Dá o último retoque no documento digitado e enfim desliga o
computador, levanta-se da cadeira e fecha a sala. São seis horas, seis horas,
seis horas, tem que sair agora porque demora duas horas e meia para chegar à
sua casa, muito tarde, muito muito tarde. Está morrendo de fome. Sai ao portão,
anda pela rua, faz frio, o vento bate no nariz sem dó, ele lembra que na
carteira tem apenas dois reais em dinheiro, com isso não dá para comer nada.
Como é que faz para aguentar a longa viagem em pé, esmagado entre dois sovacos
e infindáveis pernas, com a cabeça esgotada e o corpo derretendo em cansaço?
Fica na segunda fila para o ônibus, a primeira não consegue sequer ver onde
termina. Cabe tudo aquilo de gente? Pega os dois reais e compra um salgadinho
de cem gramas, sabor queijo, só para enganar o estômago. O salgadinho suja os
dedos e deixa os dentes grudando uns nos outros, vai ter sede e não tem nada
para beber. Ao seu lado um homem vende churrasquinho e ele fica pensando se é
isso que o homem faz o dia todo, preparar a carne e à noite vender no ponto de ônibus.
E o dia todo ele só preenche planilhas com dados e valores, vez em quando
parando para tomar um gole de café, e fica com aquele gosto amargo e ruim na
garganta o resto do dia. A fila aumenta e o ônibus não chega. O salgadinho está
pela metade e lembra que não comeu nada melhor naquela quarta-feira fria. Amanhã
ele pensaria em comer direito. Amanhã, aliás, ele pensaria que poderia fazer
diversas coisas diferentes: tirar dinheiro no banco, organizar sua rotina,
aproveitar o tempo que resta no fim do dia, organizar sua mesa de trabalho,
lembrar de limpar a caixa de entrada de e-mails e mais uma porção de outras
atividades. Enquanto espera a viagem no ônibus ele pensa em tudo aquilo que
quer fazer, e se empolga com as idéias porque prefere pensar que sempre amanhã
será um dia diferente, sempre amanhã, assim o tempo que escorre hoje sempre
escorrerá somente hoje, hoje apenas, porque ele demora duas horas, duas horas,
duas horas para chegar em
casa. E tem que acordar cedo, acordar às seis horas, para
sair no horário e chegar na hora certa e acompanhar o ponteiro do relógio que
avança, avança, avança...
quinta-feira, 18 de abril de 2013
o melhor prefácio: Admirável Mundo Novo, 1932
1 opiniões
Escrito -
Tais G. Faraco
Um tanto longo, mas destaquei a primeira parte do melhor prefácio que já li: a honestidade de Huxley em repensar determinadas estratégias e, principalmente, suas palavras sobre a sanidade.
O remorso crônico, e nisso estão de acordo todos os moralistas, é sentimento muito indesejável. Se você se comportou mal, arrependa-se, faça as correções que puder e dedique-se à tarefa de portar-se melhor da próxima vez. De modo nenhum acalente sua má ação. Rolar na sujeira não é o melhor meio de se limpar.
A arte também tem a sua moralidade, e muitas das regras dessa moralidade são as mesmas da ética comum, ou ao menos análogas a elas. Por exemplo: o remorso é tão indesejável em relação à nossa má arte quanto em relação ao nosso mau comportamento. A maldade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada no futuro. Meditar sobre as falhas literárias de há dez anos, procurar remendar uma obra deficiente até chegar à perfeição que não possuía na primeira apresentação, despender a idade madura tentando consertar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que se foi na juventude - decerto tudo isso é vão e fútil. Eis por que este Admirável Mundo Novo é o mesmo do antigo. Seus defeitos como obra de arte são consideráveis; todavia, para corrigi-los seria preciso reescrever o livro - e no processo de reescrevê-lo, como pessoa mais velha, provavelmente se retirariam não só algumas das falhas da estória, mas também alguns de seus méritos originais. Assim, resistindo à tentação de me espojar no remorso artístico, prefiro deixar de mão o bem e o mal e pensar em outra coisa.
Antes disso, entretanto, parece conveniente citar ao menos o defeito mais sério da estória, que é o seguinte: oferecem-se apenas duas alternativas ao Selvagem: uma vida insana na Utopia, ou a vida de primitivo numa aldeia de índios, mais humana em certos aspectos, mas em outros, pouco menos excêntrica e anormal. Na ocasião em que o livro foi escrito, essa ideia de que se dá ao ser humano a liberdade de escolha entre a insanidade de um lado e a demência do outro, era uma das que mais me divertiam e eu a considerava com possibilidades de ser verdadeira. Entretanto, por amor ao efeito dramático, permite-se muitas vezes ao Selvagem falar como ser mais racional do que de fato permitiria sua educação entre os praticantes de uma religião que é meio culto da fertilidade e meio ferocidade Penitente. Na realidade, nem mesmo o conhecimento de Shakespeare justificaria tais elocuções. E, naturalmente, ele por fim é levado a desistir da sanidade; seu Penitentismo nativo reafirma sua autoridade e ele termina numa autotortura maníaca e num desespero suicida. "E então assim morreram miseravelmente" - em grande parte para a tranquilidade do esteta gozado e cético que era o autor da fábula.
Hoje não tenho desejo de demonstrar que a sanidade é impossível. Ao contrário, embora não deixe de conservar a mesma triste certeza do passado de que a sanidade é fenômeno raríssimo, estou convencido de que ela pode ser encontrada e gostaria de vê-la mais amiúde. (...)
Se eu tivesse de reescrever agora o livro, daria uma terceira opção ao Selvagem. Entre as alternativas de seu dilema - a utópica e a primitiva - colocaria como terceira escolha a sanidade - já de fato possível, até certo ponto, numa comunidade de exilados e refugiados do Admirável Mundo Novo, vivendo nos limites da Reserva. A economia dessa comunidade seria descentralizada e henry-georgiana, a política, cooperativa kropotkinesca. A ciência e a tecnologia seriam usadas, à semelhança do repouso semanal, como se fossem destinadas ao homem e não (como atualmente e mais ainda no se o Admirável Mundo Novo) como se o homem se devesse adaptar e submeter a elas. A Religião seria a busca consciente e inteligente do Fim Último do homem, o conhecimento unitivo do Tao ou Logos imanente, da Divindade Transcendente ou brâmane. E a filosofia de vida predominante seria uma espécie de Utilitarismo Superior, na qual o princípio da Felicidade Máxima seria secundário ao princípio do Fim Último - a primeira questão a ser feita e respondida em qualquer contingência da vida seria: "De que modo este pensamento ou ação contribuirá ou interferirá na realização do Fim Último, por mim e pelo maior número possível de outros habitantes?"
Criado entre primitivos, o Selvagem (nessa nova versão hipotética do livro) não seria transportado para a Utopia até ter tido a oportunidade de aprender de primeira mão algo sobre a natureza de uma sociedade composta de indivíduos livremente cooperativos dedicados à procura da sanidade. Assim alterado, o Admirável Mundo Novo possuiria uma perfeição artística (se é permissível usar palavra tão ampla em relação a uma obra de ficção) e filosófica, de que a forma atual evidentemente carece.
Aldous Huxley, 1946
quarta-feira, 17 de abril de 2013
êta, vidinha mais ou menos!
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Escrito -
Tais G. Faraco
A casinha na beirinha do morro ficava sempre de janelas escancaradas, como grandes olhos abertos para a vida. O vento fresco da manhã circulava trazendo os sussurros de bom dia das árvores e dos passarinhos. Acontecia sempre de acordar com um samba ressoante pela casa e o bem-te-vi que saracoteava no batente da janela todo dia atrás de migalhas de pão até arriscava alguns passinhos de dança. Gostava de aparecer por ali e se o samba acabasse antes, ele não ficava triste não, sinfoniava um allegro. Passarinho desses não se prende na gaiola, deixa é solto para que possa ir cantar em outras janelas, e se voltar é por vontade própria...No fim da tarde, aparecia novamente para dizer adeus e que logo pela manhã voltaria. Se juntava aos seus e voava longe, longe, formando lindos desenhos pelo céu. As árvores sacolejavam seus últimos espasmos, as fracas folhas caíam ao chão e se espalhavam pela terra, de onde renasceriam assim que tudo tivesse seu tempo. A dama-da-noite começava a se embelezar para seu encontro com a lua e o seu perfume inundaria a tudo e a todos de puro amor. A casinha ainda não fechava suas pestanas, pois à noite recebia novos visitantes: havia as corujas, sérias e formosas, e para elas cabia ouvir lindíssimas sonatas para piano. Eram mais ressentidas que os pássaros: se a música acabava, iam embora com um pio magoado. Mas também sempre voltavam. E quando o céu estava cheio de olhos piscantes, as janelas se fechavam e tudo se preparava para dormir no melodioso silêncio da eternidade.
quarta-feira, 13 de março de 2013
excêntrico Chico
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Escrito -
Tais G. Faraco
Quando dá meia-noite, Chico se levanta, tropeçando em seus próprios pés, e vai até a porta da sala. Destranca e sai de sua casa ainda de pijamas, fechando a porta atrás de si. Depois, parado na soleira, bate na porta de sua casa, como se fosse um visitante. Bate uma, duas, três, quatro vezes. Chico faz isso religiosamente, todos os dias. Seria sonambulismo se ele não estivesse consciente nos momentos de sua fuga banal. Chico se vê como um visitante, uma companhia para suas noites solitárias e sente-se ingenuamente feliz com isso: visita a si mesmo. Abre a porta para si e sorri satisfeito pela recepção tão agradável de seu eu dissociado. Depois de todo esse processo, Chico volta a dormir sentindo-se menos solitário pela visita recebida durante a noite de sua própria visita. Quando acorda pela manhã, não vê ninguém. O sol não ilumina outra pessoa senão ele, é sua sombra que vê pela casa durante todo o dia e à noite, já fatigado de tantos vultos silenciosos e incomunicáveis, Chico se deita à espera da visita que vem sempre na hora dúbia. É a sua tentativa de ao menos tornar sua noite de sono seguramente tranquila.
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