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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

uma clarideia

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acho que a maior percepção que alguém pode ter sobre a vida
e uma das mais leves
é compreender que tudo, tudo, é discurso, construção social, significação humana.
ao universo cabe apenas a nossa existência, a constituição biológica


e isso me faz pensar naqueles que aplaudem o pôr-do-sol
não há nada de errado no pôr-do-sol
e nem no nascer do sol
e nem nos que aplaudem, seja o que for
mas isso me lembra uma música:
you realize
the sun doesn't go down
it's just an illusion caused
by the world
spinning round*
se os que aplaudem o por-do-sol aplaudem uma causa física
normal, sem qualquer sentido embutido,
executada desde o começo dos tempos
também deveriam aplaudir as marés,
a lua crescente,
os solstícios e os equinócios
os terremotos
assim como o movimento de translação
mas eles não aplaudem uma causa física
aplaudem um sentido social construído
de serem felizes,
de serem aceitos,
de acreditarem na beleza,
de acreditarem que são seres abençoados.


e aí então não há dúvidas: vivemos em ilusão.




*do you realize?, the flaming lips


quinta-feira, 14 de março de 2013

fantasia do equilíbrio

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Ele fumava bem, mas escrevia mal. A vida tem dessas compensações. Dizia as palavras e elas voavam com o vento, levadas pela fumaça do cigarro. Aprendeu, então, a baforar fumaças de poesia, soltar aneis de onomatopeias e dissipá-las em trava-línguas. Arranjou amantes apaixonadas pelo silêncio literário desse homem que só fumava suas ideias. Ele presenteou-as com flores e suas palavras eram escritas em um bilhete, pois assim não se perdiam. Com o tempo, porém, as palavras se apagavam do papel e suas amantes largaram-no por ele já não ter mais nada a dizer. Abandonado, ele não fez nada. Sorria bem, mas amava mal. A vida tem dessas compensações.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

um pouco de sol nos escritos

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Fernando Pessoa (ou seria um de seus heterônimos?) ousou escrever que tem em si todos os sonhos do mundo; John Lennon contou a um repórter que endoidou-se por Yoko quando, certa vez, subira a escada de uma de suas instalações e lá no topo encontrara a palavra "sim" escrita; Gandhi também disse alguma coisa, mas em silêncio, sentado em sua usual posição de Buda. Elis Regina cantou sabiamente que a esperança dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar; ao passo que Cazuza, insurgindo-se na dor de cotovelo, preferiu dizer que se esconde a verdade é para proteger você da solidão; Al Pacino, cego, dançou tango guiando-se só pelo perfume da mulher - sem nem ao menos saber que ela vestia preto; Platão propôs a perfeição máxima possível em algo inatingível metaforizado como o mundo das ideias; Tom York sussurrou a canção You And Whose Army enquanto o sono o atingia deitado na cama; Coldplay fez a menina chorar. Por fim, Camões escreveu um soneto dizendo que amor é fogo que arde sem se ver e eu acho que na verdade se vê, sim.

domingo, 1 de julho de 2012

pequeno coro bêbado

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"Madrugada
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem"



Samba pela avenida, a dois passos da ponte a noite pode se tornar infinita. Lembra Eduardo Marciano nos acessos boêmios de cantar trepando nos galhos de concreto. Abrir os braços e ocupar toda a rua, abraçar toda a cidade, amar todos os indivíduos, expressar para todas as janelas que a noite, a noite é rara. O passo cambaleante, os amigos atropelando-se pelas guias: vem aqui que isso não acaba nunca, o ser só se torna ser quando traz à superfície o inconsciente, que inconsciência?, estamos todos aqui agora. Vamos parar o tempo, olhar para os rostos encavalados nos terraços julgando com suas velhas teorias o novo sangue bêbado das ruas. Pegue mais um copo e beba, beba a Dionísio por tão perfeita embriaguez de espírito em tempos tão retidos. É o que resta, afinal, longe desses muros, a dois passos da ponte; a fumaça, o copo cheio, a lua.

terça-feira, 10 de abril de 2012

desesperança

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Disseram-lhe desde muito criança que trevo de quatro folhas dava sorte. Passou muito tempo procurando no meio do asfalto, no meio da grama, na moita e no chão. No dia que achou, fez do trevo de quatro folhas três, duas, uma, nenhuma folha e só uma minúscula haste, que jogou no chão e continuou a vida.

quarta-feira, 14 de março de 2012

de dentro da alma

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De tudo, resta a pergunta, que já foi a de Calvino: como poderemos esperar salvar-nos naquilo que há de mais frágil?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

seis e meia

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Nesses dias em que a tarde parece que posa com volúpia, só pedindo para ser fotografada, insinuando-se mais e mais a cada minuto que passa. E não há uma câmera, há apenas palavras. Mas não parece ser suficiente, e então a tarde se fecha num breu, ressentida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"poema é coisa que se faz vendo"

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O cego se apóia no cego e juntos começam a andar.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

1506

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- Papai, descobri o que os sonhos são. É porque seus olhos viram para o outro lado e você passa a enxergar dentro da sua própria cabeça. E tudo não passa de reflexos do que se passa lá...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

aquele pensamento, sabe?

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É igual o que a água de côco se tornou: de algo fresco, geladinho e natural, virou uma bebida com gosto de conservante. Tá me entendendo? É assim que me sinto em relação a você. Sua amargura, agora, tem gosto de antioxidante ácido ascórbico. E eu desgosto absolutamente.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

um casamento harmonioso

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- Cale sua maldita boca, mulher. Vai pra cozinha, faz alguma coisa, mas me deixa em paz, puta que pariu.

- Quando foi que me casei com você?

- Faz muitos anos que eu te aguento.

- Só pra eu me lembrar de não cometer esse erro novamente quando eu pegar a arma e atirar nessa sua cara de porco velho.

E saiu batendo os pés.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

menina moça

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Ela perguntou à avó onde o avô tinha ido. Fazia tempo que não o via, achou que tinha viajado. Estava com saudade de sentar aos seus pés e ouvir suas histórias dos tempos de menino. A avó, com a voz embargada, não soube o que dizer, então respondeu a verdade: está no céu, nunca mais volta.

E a menina virou mulher antes mesmo da primeira menstruação.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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