sábado, 30 de maio de 2015

Lorival e Nelson

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Moravam os dois: Nelson, na cadeira de rodas, e seu amigo Lorival, o ajudante. O conjugado de número 43 na esquina com a mais famosa padaria era prático e objetivo: um sofá de dois lugares, uma televisão de tubo em cima de uma mesa de três pernas e um toco de madeira, um pano cinza cobrindo a claridade vinda da janela, um pequeno fogão ao lado de uma geladeira de dois terços da altura de Lorival, de cor azul bebê descascada e uma pia de mármore branco encardida. Comiam na sala. Lorival com o prato no colo e Nelson com uma pequena mesinha adaptada. É que não sentia as pernas.

No fundo, um banheiro apertado com ladrilhos dos anos 80 e um quarto com um armário e duas camas. A luz do quarto piscava porque a fiação estava comprometida e Lorival sempre se esquecia de arrumar. Por causa disso deixou de acender a luz do quarto, dizia que não era mais preciso, já que em frente à janela piscava um semáforo, o que o ajudava minimamente a enxergar o ambiente. Nelson gostava menos ainda dessa solução, pois dizia que o quarto ficava parecendo aposento de puta, que não é em si um grande problema, "o problema é que não há puta!".

Nelson perdeu a sensibilidade das pernas em um acidente literário. Lorival anda normalmente, mas é um pouco biruta, dizem. Nelson é a mente de Lorival e Lorival é as pernas de Nelson. O mutualismo já dura mais de 30 anos, embora a origem tenha se perdido nas poeiras do tempo. O que importa mesmo é que Nelson é escritor e Lorival jamais tira sua velha blusa furada de três cores - creme, marrom e mostarda. Leva a cadeira de rodas a passos lentos de quem já tem vasto cabelo branco e rugas pretéritas. O comum a ambos é uma touca de lã, que usam nesses dias de muito frio.

Lorival gosta de cinema e Nelson tem muito sono. Saíam cedo de casa para pegar a sessão das sete, em uma famosa Mostra de Cinema que acontecia na cidade. Os ingressos eram de graça, e o hall de entrada do cinema de rua lotava de iminentes jovens cineastas com muito a dizer sobre seus próprios filmes. Lorival geralmente estaciona Nelson em um canto onde não atrapalha ninguém; de costas para a rua, ao lado do balcão da cafeteria. Deixa-o ali enquanto esvazia o lixo de sua sacolinha a tiracolo, que leva a qualquer lugar, e que comumente tem o jornal do dia que Nelson adora ler. Livra-se de alguns pequenos papeis, experimentando todos os lixos diferentes do lugar, andando para lá e para cá com saciável curiosidade. Nelson fica. Tira do bolso o caderninho que usa para anotar suas frases literárias e observa o que já escreveu. Lorival vê um dos cineastas conversando com seus amigos críticos e senta-se ao seu lado para ouvir a conversa. "Acho que meu filme tem uma sensibilidade única, que poucos vão entender. Demoramos seis meses só para fazer a primeira cena". Lorival guarda a frase na cabeça para dizer a Nelson.

Lorival fica na fila do caixa, retira uma nota solta de dentro da calça e pede um saquinho de pão de queijo. Volta para seu amigo, cutuca seu braço e entrega os pães de queijo recém-saídos do forno. Nelson pega e não diz nada. Lorival agacha e pergunta "quer café?", Nelson diz que sim. Lorival volta à fila do caixa e compra um café, grande, que entrega ao seu amigo, depois volta novamente à fila e compra outro saquinho de pão de queijo para si. Deixa Nelson ali parado, comendo sozinho, e volta às suas andanças. Pergunta a algumas pessoas a hora, já está próximo da sessão. Vai à bilheteria pegar o bilhete de Nelson, entrega a ele e depois volta para pegar o seu. Entram na sessão, Lorival senta ao lado de Nelson e diz:

- O rapaz desse filme disse que a sua sensibilidade é única e que poucos vão entender.

Nelson bufa e não maneira a altura da voz naquela sala de cinema silenciosa:

- Que besteira que esses jovens pensam!

Alguns viram a cabeça para olhar de onde vem aquela voz e, sobretudo, a afirmação raivosa. Mas a penumbra não os deixa definir o rosto, e voltam a seus mundos um pouco mais seguros do que antes.
O filme começa, Lorival tenta prestar atenção, mas Nelson já caiu no sono e está roncando um pouco alto. A primeira cena, aquela que demorou seis meses para ser feita, não prende a atenção de Lorival, que deixa a sala com Nelson dormindo. Sabe-se lá por onde andou e quais outras conversas ouviu... Pouco antes de acabar o filme, Lorival volta à sessão para levar Nelson embora. Este, emburrado, não diz nada, mas escreve em seu caderninho.

Lá fora, vou ao ponto de ônibus e encontro Lorival e Nelson esperando a lotação. Digo que inventei uma vida inteira aos dois, dando-lhes nomes e endereço? Nelson se adianta e me diz com oratória de locutor:

- Deixa eu lhe dizer uma coisa, minha jovem, que pode ser muito útil. Recentemente, os franceses descobriram que repolho branco e agrião podem impedir o câncer de intestino, uma doença muito grave que chega a matar uma pessoa a cada cinco. Ouviu bem? Repolho branco e agrião. Essa notícia saiu em um jornal de pequena circulação e como é muito importante, estou lhe dizendo para que possa repassar a outras pessoas e evitar a incidência de câncer de intestino.


Agradeci a sua notícia e pouco depois seu ônibus chegou. Vi os dois embarcarem ainda em tempo de ouvir Nelson dizer: "amanhã tem que me levar para fazer a barba e o cabelo". Lorival acenou e a porta do ônibus fechou atrás de si.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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