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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

uma clarideia

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acho que a maior percepção que alguém pode ter sobre a vida
e uma das mais leves
é compreender que tudo, tudo, é discurso, construção social, significação humana.
ao universo cabe apenas a nossa existência, a constituição biológica


e isso me faz pensar naqueles que aplaudem o pôr-do-sol
não há nada de errado no pôr-do-sol
e nem no nascer do sol
e nem nos que aplaudem, seja o que for
mas isso me lembra uma música:
you realize
the sun doesn't go down
it's just an illusion caused
by the world
spinning round*
se os que aplaudem o por-do-sol aplaudem uma causa física
normal, sem qualquer sentido embutido,
executada desde o começo dos tempos
também deveriam aplaudir as marés,
a lua crescente,
os solstícios e os equinócios
os terremotos
assim como o movimento de translação
mas eles não aplaudem uma causa física
aplaudem um sentido social construído
de serem felizes,
de serem aceitos,
de acreditarem na beleza,
de acreditarem que são seres abençoados.


e aí então não há dúvidas: vivemos em ilusão.




*do you realize?, the flaming lips


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

crônica de sangue

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Era um domingo de inverno na metrópole. O céu cinza, o chão cinza, as pessoas todas vestidas de cores sóbrias e cobertas de pano até a cabeça – fazia muito frio e o inverno é deveras elegante e severo. Tal era o quadro quando aquela pequena menina, particularmente normal sem qualquer característica notável, resolveu dar uma volta pela rua sem a companhia de sua mãe, apenas para ver as pessoas todas arrumadas. Saiu vestindo amarelo, como um canarinho, e correu pelas frias calçadas como se tentasse voar com o gélido vento de inverno. Sentiu cheiro de café no ar. Suas asas falharam e a menina tropeçou nos próprios pés; caiu no chão e esfolou o joelho, em frente à cafeteria. O duro concreto não lhe poupou a dor tampouco a roupa, já que a calça rasgara e o joelho estava exposto com sua carne arranhada. Sangrava. Por um soberbo acaso, da cafeteria ressoava o prelúdio para piano número quinze de Chopin e a solenidade melancólica da música calou o choro da menina e fez-lhe olhar para o machucado. Algo de mágico acontecia em seu corpo: sua pele se abria e revelava o que havia de mais íntimo em seu interior. A exposição do próprio sangue, que pingava e manchava a pele impermeável do concreto, era quase como uma violação de sua própria intimidade. Por trás de sua pele branca, a capa protetora de seu corpo, havia um organismo que pulsava sangue vermelho. Sua cor forte era ainda escondida pelas veias, de forma que não há nada no corpo que se permita ser vermelho a não ser o sangue. Ser vermelho garante que seja saudável, mas ao mesmo tempo indica seu perigo. Quando exposto, vazado, por uma brecha aberta na pele, o sangue grita que algo está errado e o vermelho é a cor da atenção. Pode existir somente dentro de nós, trabalhando e existindo às escondidas, e no caso da menina, que nunca havia visto seu próprio sangue, ele existia de maneira invisível. Quase se perguntou o que era aquilo saindo de seu joelho depois que caiu. Mas soube, no exato momento em que as gotas de sangue pingavam no chão – e a música de Chopin não poderia ser mais apropriada, pois era também conhecida como “Raindrop” (gota de chuva) – que aquilo era um evento excepcional em sua biologia particular. Não teve medo de seu sangue e nem ficou impressionada com o machucado, apenas intrigada com a aparência daquilo que vive de forma velada. E nas redondezas, o sangue vermelho da menina de amarelo se destacou no meio daquele mar de coisas cinzas.

Essa imagem ficaria ainda na sua cabeça durante muito tempo. Quando cresceu pôde ver qual era a simbologia do sangue em sua cultura, mas nunca a entendeu realmente. Aos onze anos ficou mocinha e teve sua primeira menstruação: a sensação dessa vez era diferente daquela da infância, pois a presença do sangue não era excepcional e sim regulado, fazia parte das engrenagens biológicas de qualquer mulher. Mas qual a diferença daquele sangue que sai do joelho esfolado e o sangue que sai de dentro de seu órgão? Apenas, talvez, o significado de sua manifestação. Mas onde quer que estivesse, qualquer que fosse o seu sangue, aquela cor vermelha era sempre chamativa. Descobriu que é aceitável cair, machucar o joelho e andar com sangue na perna até conseguir limpá-lo – porque o vermelho não deve existir por fora – pois sua causa era acidental, mas não é aceitável se suas roupas se manchem de sangue de “mocinha”, pois a causa não é nada acidental. Pelo contrário, esse sangue deve ser extirpado até quase se tornar invisível, deixar de existir, já que sua existência é considerada impura e digna de infelicidade. Foi o que uma dessas propagandas de absorvente lhe ensinou – e também as crianças da escola, quando apontaram o dedo para ela e riram da manifestação genuína do relógio biológico - quando colocado em confronto com a calça branca e seu símbolo de pureza. Foi aí que sentiu como o sangue, tão alheio a tudo o que lhe é imposto por aqueles do lado de fora, não é apenas fluido essencial e vital de seu próprio corpo, do qual não é preciso ter repulsa, mas algo que pertence a um universo maior de símbolos e significações, dentro de um mundo asséptico. Que pena, pensa ela. Gostava mais quando Chopin entendia os pingos de meu sangue caindo no chão.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

êta, vidinha mais ou menos!

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A casinha na beirinha do morro ficava sempre de janelas escancaradas, como grandes olhos abertos para a vida. O vento fresco da manhã circulava trazendo os sussurros de bom dia das árvores e dos passarinhos. Acontecia sempre de acordar com um samba ressoante pela casa e o bem-te-vi que saracoteava no batente da janela todo dia atrás de migalhas de pão até arriscava alguns passinhos de dança. Gostava de aparecer por ali e se o samba acabasse antes, ele não ficava triste não, sinfoniava um allegro. Passarinho desses não se prende na gaiola, deixa é solto para que possa ir cantar em outras janelas, e se voltar é por vontade própria...No fim da tarde, aparecia novamente para dizer adeus e que logo pela manhã voltaria. Se juntava aos seus e voava longe, longe, formando lindos desenhos pelo céu. As árvores sacolejavam seus últimos espasmos, as fracas folhas caíam ao chão e se espalhavam pela terra, de onde renasceriam assim que tudo tivesse seu tempo. A dama-da-noite começava a se embelezar para seu encontro com a lua e o seu perfume inundaria a tudo e a todos de puro amor. A casinha ainda não fechava suas pestanas, pois à noite recebia novos visitantes: havia as corujas, sérias e formosas, e para elas cabia ouvir lindíssimas sonatas para piano. Eram mais ressentidas que os pássaros: se a música acabava, iam embora com um pio magoado. Mas também sempre voltavam. E quando o céu estava cheio de olhos piscantes, as janelas se fechavam e tudo se preparava para dormir no melodioso silêncio da eternidade.

domingo, 1 de julho de 2012

pequeno coro bêbado

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"Madrugada
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem"



Samba pela avenida, a dois passos da ponte a noite pode se tornar infinita. Lembra Eduardo Marciano nos acessos boêmios de cantar trepando nos galhos de concreto. Abrir os braços e ocupar toda a rua, abraçar toda a cidade, amar todos os indivíduos, expressar para todas as janelas que a noite, a noite é rara. O passo cambaleante, os amigos atropelando-se pelas guias: vem aqui que isso não acaba nunca, o ser só se torna ser quando traz à superfície o inconsciente, que inconsciência?, estamos todos aqui agora. Vamos parar o tempo, olhar para os rostos encavalados nos terraços julgando com suas velhas teorias o novo sangue bêbado das ruas. Pegue mais um copo e beba, beba a Dionísio por tão perfeita embriaguez de espírito em tempos tão retidos. É o que resta, afinal, longe desses muros, a dois passos da ponte; a fumaça, o copo cheio, a lua.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

com infindável descarinho:

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Quando ele encostava sua pele na minha, eu sentia Vivaldi. Amávamos como uma orquestra, os clarinetes terminando tudo em um sussurro uníssono. Mas depois de um tempo passei a sentir a Nona de Beethoven e então tudo acabou.

domingo, 30 de outubro de 2011

tupiniquim

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Rodou o LP de Martinho da Vila, saiu sambando pela casa. Todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba. Contaminou-se pelo ritmo, trocou por Jair Rodrigues e foi à janela paquerar. Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? O que tem é que à janela não conseguiu a atenção desejada, quis ouvir a voz de Mario Sousa Marques Filho: reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Achou que o incidente na janela poderia ser bem descrito por Noel Rosa, trocou o LP. E eu pergunto, com que roupa?, com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou. Depois, sem fôlego para sambar, mudou de disco, Chico Buarque, exigia sentar na poltrona e ler Clarice com um cigarro entre os dedos. Mulher, você vai gostar, tô levando uns amigos pra conversar. E depois de tudo isso o que pede é botar Cartola, porque mesmo com samba chega a hora inadiável de se angustiar na varanda, com o pôr-do-sol a ouvir a última melodia do dia. Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó...

domingo, 16 de outubro de 2011

blues

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Começava devagar.
Saboreava o gosto puro de cada nota com a paciência de um meticuloso em busca da iluminação. A iluminação musical. E quando pensava nisso o calor ia subindo e emanava pelos poros... e então as notas exigiam amor e eram tocadas como mulheres...ia subindo....subindo...até atingir o pico, a libertação clássica de tudo o que se prende, era uma viagem mental e corporal, dedilhava com a mesma rapidez com que o suor escorria da sua testa, agora envergada, tentando alcançar as notas mais profundas da composição que era antes de tudo sua própria alma que ele precisava cavar cada vez mais fundo até encontrar aquilo que todos passam a vida procurando aquilo que as fazem perder o ar e o chão até se sentirem caindo em um abismo de total compreensão dos sentidos onde o mínimo toque de pele arrepia a espinha enquanto tudo isso é engolfado pelo som febril que nasceu nas ruas e nos becos onde se encontram a mais sincera e profunda arte já feita porque representa os olhos da alma boêmia alma essa mesma alma que agora se enche de iluminação por ter enfim encontrado sua sintonia com as notas musicas expelidas agora em decrescente sensações...que vão se rebaixando...tornando-se inaudíveis...mas totalmente sensitivas...o som do mais rele ser humano pisando nessa superfície fria...quando por dentro está cultivando calor...e tudo termina na última nota, angustiada, por onde terminam todos os fins existentes.....
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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