quarta-feira, 1 de junho de 2016

trans formações


Já há um tempo parei de escrever, os textos do blog, a coluna no jornal, as palavras que eu guardava só para mim. Tentar voltar agora traz inegavelmente a sensação de um mundo que se transformou, como o tempo numa redoma de vidro passando e passando, folhas caindo e inverno chegando, e depois verão e sol e inverno tudo de novo.
Antes fosse apenas climático. A transformação foi toda em um novo estado de ser, e em um novo mundo exterior, com novas questões e complexidades. Muitas.
É como se não fosse mais possível escrever como antes, e apesar de ser natural a muda de pele, é algo que nos faz pensar. Se não escrevo mais como antes, se não posso escrever como antes, o que consigo entender do meu momento atual, em relação ao passado?
Primeiro, o vocabulário. O espaço acadêmico da faculdade, as aulas esperadas de teoria, o contato com novos pensamentos e autores e as iluminações que vira e mexe surgiam por conhecer a criação imagética de algumas obras fantásticas. As provocações do conhecimento. Os constantes trabalhos obrigatórios que, antes de merecerem as eternas reclamações, serviam para nos pôr em movimento. Os alunos zanzando pelos corredores. E, no meu caso, o tempo livre dedicado a ler tudo o que eu sempre quis conhecer. Vivência, novas palavras. O vocabulário estava em seu florescimento. Experimentava um estilo aqui e outro ali, achava o ponto alto conhecer Rimbaud, me preparava para Goethe e Tolstói, Dostoievsky e Herman Hesse arrepiaram alguns pelos, aproveitava prateleiras da biblioteca da faculdade que, na minha ignorância, parecia enorme. Hoje conheço maiores. Os dedos eram ágeis e às vezes se adiantavam a mim. O impulso para escrever não precisava de um catalisador. Eu pensava crônica, eu pensava poesia (ainda que o meu intenso autojulgamento e autocrítica me deixassem incomodada por dar ao que eu escrevia tão sofisticada categoria). Afinal, era o tipo de vida que eu estava levando.
Finda a faculdade, começo a trabalhar, meu tempo é dividido em horário comercial, aprendo relações humanas e frustrações, potências e barramento. O corpo sente, e muda. Não consigo dividir meu tempo. Não leio mais. Meu contato com cinema, agora sem alguém para me convidar a conhecer novos caminhos, resume-se ao caminho de menos resistência. Fico ligada então a questões mais... comerciais. O deslumbramento com aquelas produções outsiders sumiu, como também sumiram as produções outsiders do meu convívio. Vez ou outra. Os novos pensamentos e autores, as provocações do conhecimento, o estímulo, precisamente o estímulo, ficaram adormecidos. Não há pessoas zanzando no meu convívio. Fico sentada em uma sala solitária diante de um computador, prestando serviço para publicitários ranzinzas e mal educados. Chego em casa com a têmpora latejando e só penso em jantar. Não leio mais. Meu vocabulário se reduziu, foi enxugado, sento para escrever e pareço mimetizar as páginas da internet que leio diariamente. As frases se tornam curtas e para economizar tempo escolhe-se as palavras mais fáceis, que vêm à primeira vista. Sinto-me como um redator freelancer vendendo seus serviços por cinco reais um texto de oitocentas e cinquenta palavras sobre nutrição. Toda uma forma de pensamento: por esse preço, não vou quebrar a cabeça. Então você escolhe as palavras mais fáceis e a construção mais lógica e tradicional de frase, de sentido. Nada muito profundo. Afinal, o que vale é o preço, eu valho o preço, mesmo que por cinco reais. É mesmo? De forma que, quando você lê e lê e lê e lê enquanto navega por ondas cibernéticas, tudo parece igual. Torna-se seu vocabulário. Você pensa em tempo, em divisão de horas, cabe aquele livro de Nietzsche agora? Torna-se seu jeito de escrever. Porque tudo isso se torna, enfim, o tipo de vida que estou levando.
Bom. As questões complexas vão se interpelando. Então a culpa é do trabalho? Do dinheiro? Estudante dependendo de dinheiro paterno é fácil mesmo. Sim, vozes. Há culpa e não culpa. Afinal, falo de mim apenas. E de escolhas. Aquela coisa, dos 100 caminhos que podemos escolher. Muitos outros trilham rotas paralelas, outros perpendiculares, outros são oblíquos ou estão à margem. O mundo começa a se abrir, muitas vozes surgem, é tudo muito. Eu li hoje: num mundo globalizado, somos cidadãos do mundo e, portanto, havendo outras oportunidades, temos todo o direito de ir atrás delas.
À parte isso, pode ser que eu tenha usado óculos escuros durante um tempo depois que saí da faculdade. O ambiente lá pode ser uma bolha ou não, e os professores sempre se referiam ao "mundo lá fora" como difícil, diferente. Mundo lá fora. Que expressão engraçada.
Seja como for, um estado de ser infeliz em determinado lugar no horário comercial também te molda. A coisa mais legal do mundo é ver como existem pessoas com estados de ser tão diferentes em situações iguais. Há aquelas que estão infelizes, mas são ativos. Os que conseguem abstrair e construir seu mundo ideal nas horas vagas. Os que se afogam na tristeza. Os que permanecem inertes. Os que nem pensam. Os que pensam e continuam. Os que estão infelizes, mas não querem continuar. São os caminhos, vê?
Segundo, a superficialidade. Pode ser um ponto subjetivo, mas tem influência sobre mim. Em algum ponto, vi que tudo ao redor era desprovido de profundidade e consistência. Um mundo flutuava em noções, pensamentos, ações, comportamentos, palavras, sentidos, que só batiam em uma casca. Todo o resto passava ignorado, ou pior, dissimulado. Palavras viravam mercadoria. Orgânico, saudável, equilíbrio. Os comportamentos passam só pela primeira leitura, a mais instantânea, impulsiva, e assim se dão por satisfeitos. Há muitas discussões que poderiam ter sido evitadas, ou levadas a outro nível. Há muito medo e gente na defensiva. Ao mesmo tempo que há, curiosamente, um intenso trabalho de divulgação pessoal. De aprimoramento da imagem. Será que passa por um aprimoramento completo, mental, espiritual e físico? Ou é apenas um retoque de imagem como um programa de edição? Para se ajustar a valores de mercado.
Ao mesmo tempo, agora você é cidadão do mundo, da cidade, do seu bairro, da comunidade da sua casa. Multicultural. Se o que eu enxergo ao meu redor é uma casca superficial, também pode ser que enxergo o reflexo de mim mesma. Será? Às vezes compreender passa pelos incômodos. Então é isso, estou também vivendo na superficialidade? Que terrível.
Mas deve ser isso mesmo:  de um ponto ao outro, eu ainda não me encontrei. Da experimentação ao completo abandono, que trajetória mais irregular para o que eu pretendia! Não, não, devo passar agora para o passo adiante (ou um passo atrás), que se situa precisamente onde deveria ser o meio desses dois estados - a vivência, a experiência e o presente. Se todo início é o início e o final é o abandono, então devo estar no meio. Conhecendo os dois opostos, posso decidir onde me encontro. Pois a minha verdade não está sendo esta - apressada, apática e desconectada do conhecimento.
Movimento!

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