sexta-feira, 10 de junho de 2011

por um desvio de interpretação

A perna esquerda toda lhe doía a cada momento que pisava com um ruído metálico no chão. Andava arrastando-a, puxando a calça para tentar uma mobilidade maior, talvez até ganhar uma certa velocidade. Por que essa é a grande palavra, né? Todos ao seu redor caminhavam a passos rápidos, a qualquer hora; e ele sempre atrás, lento, arrastado. Não se importava com isso conscientemente, mas sua mente sim. Sentia-se atrasado e inútil, então tentava arrastar sua perna cada vez mais forte, mesmo que doesse. E ah, doía. Doía porque não era uma perna, era uma barra de ferro. O corpo não foi feito para andar em uma barra de ferro. Mas tinha que andar, tinha que correr, porque morava em uma cidade onde ficar para trás era arcaico.

Chegava em casa desgastado. De cansaço físico e mental; físico pela correria e mental porque era um exercício pessoal sair na rua todo dia e agüentar os olhares assustados. Achava que tinha superado isso, todos acham quando vêem um homem de quase quarenta anos arrastando uma perna metálica. Mas só ele sabe que nunca vai superar. Nunca vai superar porque as pessoas vão continuar a tratá-lo fingindo que esse problema não existe, o que para ele era muito pior do que de fato considerá-lo. Ninguém perguntava se precisava de ajuda. Olá, estou arrastando minha perna em um dia de chuva e molhando metade do meu corpo, poderia me ajudar? Ninguém. O que raios as pessoas pensavam? Ele não se sentiria envergonhado por tentarem ajudar. Porque ele, visivelmente, precisava de ajuda.

E achava o papo de superação um discurso de fácil resultado na boca de homens inteiros. Ele era metade, sem uma perna e consumido pela amargura. Não via por quê isso deveria ser normal. Não via por quê tinha que encarar naturalmente. Não conseguia. Se sentia catalogado na categoria de deficiente, palavra que remetia à ineficiência. Ele era ineficiente? Só porque demorava para andar e não era compatível com a imagem perfeita vendida pelas propagandas?

É, se sentia mal. Mas mal sinto eu, por tomar as dores desse homem que encontrei no meu caminho e escrever essa pequena crônica, como se o desabafo fosse dele mesmo. Tudo isso acabou sendo a perna metálica da minha própria mente, que anseia por se exibir através de verbos em terceira pessoa, pessoas estas que muitas vezes são reais. Não sou poeta, deixo a mente trabalhar cambaleante, do jeito que consegue. É na impulsividade que tudo surge.

1 opiniões:

Tatiana Stefani disse...

Parabéns pelo texto e pelo talento. As vezes eu me surpreendo quando vejo que outras pessoas além de mim ainda dedicam uns minutos de sua atenção a olhar pras outras, se por no lugar delas, e as vezes sentir dores ou revoltas que nem mesmo as próprias sentem mais, por estarem calejadas de vida.
É um excelente texto!

 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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