quinta-feira, 5 de agosto de 2010

à espera

Ela gostava quando diziam. Se não diziam, nunca durava muito. Não importava o que acontecesse, ela tinha que ouvir. Sempre, para não duvidar.

Um dia conheceu um rapaz. Deu uma rosa para ela no primeiro dia. Todo romântico, não largava dela. Começaram a namorar. Ele cheio de mimos, ela cheia de esperança. A qualquer momento ele ia dizer. Tão carinhoso, esse sim ia dizer. Vai dizer.

E era como se ela esperasse sentada, olhando no relógio. Como se tirasse uma folha do calendário a cada dia, esperando o dia em que finalmente dissesse.
Ele deu flores, chocolates, jantares, viagens, mas nada dela mudar aquele olhar azedo que lançava a ele a todo instante.

Acabaram não levando o namoro adiante. Ele nunca disse.

Até que um dia andando pela rua ela esbarrou em um homem. Forte, bonito. A atração foi instantânea. Ela lhe deu o telefone, ele ligou três semanas depois, quando achou o papel no bolso sem querer. Chamou-a para jantar, não tinha nada mais interessante para fazer mesmo. Ela perguntou se não podia escolher o restaurante. Escolheu um dos mais requintados, e ainda pagou a conta. Os olhos dele faiscaram.

No décimo quinto jantar, ele ajoelhou aos seus pés e abriu uma caixinha. Era um anel de noivado. Ela logo percebeu que o anel era fajuto. Mas aceitou, porque ela queria ouvir. Aceitava tudo para ouvir.

Numa quinta-feira ele ligou para ela ir até sua casa, para ver um filminho, que tal? Na verdade ele precisava de alguém que lavasse sua louça. E ela foi, porque precisava de alguém que dissesse. Mas ele não disse, não nesse dia.

Num domingo, meio cinza, ela o viu andando de mãos dadas com uma loirinha pela rua.

Não pensou duas vezes.

- Canalha!

Ele se assustou.

- Meu bem, você por aqui! Essa aqui é...a minha irmã. Ana.

Ela partiu para cima dele com toda fúria de mulher traída, tentando esmurrar cada parte livre de seu corpo.

Ele viu que só tinha uma solução para sair sem hematomas daquela história. Agarrou-a pelos braços, olhou-a nos olhos. Aproximou-se de seu ouvido e disse: eu te amo.

Enfim alguém dissera o que ela tanto quis ouvir. Casaram-se na semana seguinte.

2 opiniões:

Mateus Lima disse...

Gosto mto de como escreve...
mesmo a história sendo angustiante, passa leve aos olhos.

Rafael M. Oliveira disse...

Você tem talento, moça! Hoje voltei a escrever e visitar blogs, o seu foi o primeiro, só espero ter a mesma sorte nos demais! Você já está nos meus favoritos...

 

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