quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

uma clarideia

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acho que a maior percepção que alguém pode ter sobre a vida
e uma das mais leves
é compreender que tudo, tudo, é discurso, construção social, significação humana.
ao universo cabe apenas a nossa existência, a constituição biológica


e isso me faz pensar naqueles que aplaudem o pôr-do-sol
não há nada de errado no pôr-do-sol
e nem no nascer do sol
e nem nos que aplaudem, seja o que for
mas isso me lembra uma música:
you realize
the sun doesn't go down
it's just an illusion caused
by the world
spinning round*
se os que aplaudem o por-do-sol aplaudem uma causa física
normal, sem qualquer sentido embutido,
executada desde o começo dos tempos
também deveriam aplaudir as marés,
a lua crescente,
os solstícios e os equinócios
os terremotos
assim como o movimento de translação
mas eles não aplaudem uma causa física
aplaudem um sentido social construído
de serem felizes,
de serem aceitos,
de acreditarem na beleza,
de acreditarem que são seres abençoados.


e aí então não há dúvidas: vivemos em ilusão.




*do you realize?, the flaming lips


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

a grande garantia para o homem foi ter descoberto o amanhã

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Olha para o relógio pelo menos três vezes. Dá o último retoque no documento digitado e enfim desliga o computador, levanta-se da cadeira e fecha a sala. São seis horas, seis horas, seis horas, tem que sair agora porque demora duas horas e meia para chegar à sua casa, muito tarde, muito muito tarde. Está morrendo de fome. Sai ao portão, anda pela rua, faz frio, o vento bate no nariz sem dó, ele lembra que na carteira tem apenas dois reais em dinheiro, com isso não dá para comer nada. Como é que faz para aguentar a longa viagem em pé, esmagado entre dois sovacos e infindáveis pernas, com a cabeça esgotada e o corpo derretendo em cansaço? Fica na segunda fila para o ônibus, a primeira não consegue sequer ver onde termina. Cabe tudo aquilo de gente? Pega os dois reais e compra um salgadinho de cem gramas, sabor queijo, só para enganar o estômago. O salgadinho suja os dedos e deixa os dentes grudando uns nos outros, vai ter sede e não tem nada para beber. Ao seu lado um homem vende churrasquinho e ele fica pensando se é isso que o homem faz o dia todo, preparar a carne e à noite vender no ponto de ônibus. E o dia todo ele só preenche planilhas com dados e valores, vez em quando parando para tomar um gole de café, e fica com aquele gosto amargo e ruim na garganta o resto do dia. A fila aumenta e o ônibus não chega. O salgadinho está pela metade e lembra que não comeu nada melhor naquela quarta-feira fria. Amanhã ele pensaria em comer direito. Amanhã, aliás, ele pensaria que poderia fazer diversas coisas diferentes: tirar dinheiro no banco, organizar sua rotina, aproveitar o tempo que resta no fim do dia, organizar sua mesa de trabalho, lembrar de limpar a caixa de entrada de e-mails e mais uma porção de outras atividades. Enquanto espera a viagem no ônibus ele pensa em tudo aquilo que quer fazer, e se empolga com as idéias porque prefere pensar que sempre amanhã será um dia diferente, sempre amanhã, assim o tempo que escorre hoje sempre escorrerá somente hoje, hoje apenas, porque ele demora duas horas, duas horas, duas horas para chegar em casa. E tem que acordar cedo, acordar às seis horas, para sair no horário e chegar na hora certa e acompanhar o ponteiro do relógio que avança, avança, avança...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

(nem) o céu é o limite

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Passou em frente a uma Igreja, dessas que se parecem com um grande galpão reformado, o culto já havia começado e a porta de vidro estava entreaberta. Sentiu vontade de entrar, ora, estamos sempre tendo que fazer planos e organizar a agenda e os horários para, na hora determinada, nos arrumarmos para a missa. Não seria libertador entrar na Igreja a hora que se quer, simplesmente por estar passando em frente naquele momento, sem se preocupar com o início e com os horários?
Entrou. O homem na porta perguntou-lhe:

- Você escreveu seu nome na ata?

- Não.

- Você tem a pulseirinha?

- Não.

- Você já veio nas reuniões anteriores?

- Não.

- Então não pode entrar.

Ficou pasmo. Mas era um local público com a porta aberta para a rua, como não podia entrar?

- Você não pode entrar.

Foi embora desolado. Passou ao lado de um supermercado e o barulho dos alimentos passando no leitor de barras foi tentador. Quis entrar e logo se deparou com uma catraca. O homem da catraca perguntou-lhe:

- Você está de mochila?

- Sim.

- Tem uma moeda dourada de 1 real fabricada ano passado para guardar sua mochila em nossos armários?

- Não.

- Você não pode entrar de mochila.

- Não tenho onde por.

- Você não pode entrar de mochila.

- Vou guardar minhas compras nela!

- Você não pode.

Desesperado, sem tem para onde fugir, quis falar com alguma alma amiga e compreensiva. Ligou para o seu amigo. A secretária de sua repartição no trabalho atendeu.

- Preciso falar com o Carlinhos.

- Você já ouviu a mensagem eletrônica?

- Mas ele trabalha ao seu lado na mesa!

- Você já ouviu a mensagem?

- Não.

- Você respondeu às nossas perguntas sobre a qualidade de atendimento de nossa empresa e deu a sua pontuação?

- Não.

- Apertou a tecla três?

- Não.

- Você não poderá falar com ele.

Então não deu outra: ficou louco. Eram tantas restrições, regras, proibições e limites imaginários e inventados, que resolveu partir dessa para melhor. Ao menos o céu era infinito. Na privacidade de sua casa, organizou o recinto, posicionou uma cadeira no centro da sala e pegou um cinto para amarrar no pilar do teto. Ouviu sirenes lá fora. Alguém arrombou sua porta. Era um policial.

- Você está tentando se matar?

- Sim.

- Você não pode fazer isso.

- Estou nos limites da minha privacidade, em um local que pago mensalmente para usar, e a vida, acima de tudo, é minha.

- Temos ordens para não deixá-lo se matar.

- Você tem um mandado de busca para ter arrombado minha porta?

- Não.

- Você tem uma cópia registrada em cartório da denúncia de meu suicídio?

- Não.

- Você registrou o protocolo da ligação recebida?

- Não.

- Então você não pode me impedir.

 

Chegando ao céu, foi parado na porta por um homem, que disse:

- Bem-vindo! Você completou todas as orações e os mandamentos descritos nas mil e seiscentas páginas da Bíblia?

- Não, mas...

- Oh, sinto muito!

E foi assim que nosso personagem descobriu que nem o céu é o limite.

sábado, 5 de abril de 2014

o amante

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Foi num desses dias quaisquer que Maria acordou de um sonho que a perturbou. Havia sonhado com um homem, charmoso, alto, vestido de esporte fino, de cabelo e barba ralos, e um sorriso encantador. No sonho, ele era seu parceiro, do tipo romântico e educado, atraente e excitante. Maria sentia cócegas na barriga só de olhar para ele, estava extasiada! Vivia a melhor de suas fantasias quando o sonoro barulho do telefone a interrompeu. Era seu marido.
- Que é, Carlos Alberto?
- Querida, estou no mercado, precisa de alguma coisa pra cozinha?
- Não, não precisa.
Nunca chamava o Carlos Alberto pelo nome inteiro,  era sempre “bem”. Estava irritada por ter sido interrompida de seu sonho com aquele homem espetacular, que estava prestes a enlaçá-la e dar-lhe um beijo! “Meu Deus, espero que isso não vá longe demais...”.
Dois dias depois, Maria sonhou novamente com o homem. Estavam na praia, molhados da água, ela deitada na areia e ele ao seu lado, estirado na toalha, de sunga, o corpo bem torneado brilhando ao sol. Acordou assustada e ofegante com tamanha visão divina.
De manhã, Maria tomou o café silenciosa. Observava Carlos Alberto e suas entradas no cabelo, ficaria calvo dentro de alguns anos. A barriga esticava a camisa social e vez por outra escapava no espaço que se abria entre os botões. Afora alguns pelos do peito que saltavam para fora da camisa. Maria suspirou fundo, e Carlos Alberto não fez nenhum comentário.
Chegava à noite e Maria ansiava a hora de dormir. Logo depois da janta, esboçava um bocejo e falava que era muito sono, cansaço e coisa e tal, ia dormir. Adormecia num instante e sonhava com o dito cujo. O homem misterioso ainda não lhe tinha dito o nome, mas continuavam a viver uma vida conjugal. Dessa vez, passeavam por um parque, de mãos dadas. Pararam em frente a uma fonte, o vento trazia um pouco da água para refrescar, ele a abraçou e a beijou. Maria não se continha de alegria, beijou com fervor aqueles lábios macios e estavam assim agarrados, quando Carlos Alberto, coitado, na profunda ignorância de seu sono, roncou alto. De um pulo, Maria abriu os olhos.
- Carlos Alberto! – gritou.
Carlos Alberto acordou também de um pulo.
- Você está roncando! – rosnou.
- Perdão – atordoado, não sabia o que fazer.
- Não consigo dormir. Preciso acordar cedo! Vai dormir no sofá! Sem reclamar!
O sono era tal que Carlos Alberto foi, ele e a culpa, dormir no sofá. Maria adormeceu novamente, mas aquela noite o homem não voltou a aparecer.
Carlos Alberto passou a dormir no sofá, já que Maria quase não conversava com ele, somente o necessário. Achou que o culpava pelo ronco daquela noite, e Maria não podia era olhar para ele sem pensar no homem de seu sonho. Não reconhecia mais o marido.
Uma noite, o sonho que tanto desejava enfim aconteceu.  Maria sonhou que vestia uma fina camisola de seda e andava de pés descalços ao longo de um quarto enorme. O homem misterioso aparecia, vestindo apenas uma calça, e eles passavam uma noite mágica de amor. Maria viveu o sonho até o fim, quando acordou naturalmente. O coração batia acelerado. Estava assustada. Olhou para seu quarto e não sabia onde estava. Carlos Alberto entrou no quarto nesse exato instante e, percebendo a expressão atônita da mulher, entregou os pontos:
- Qual o nome dele?
- De quem?
- Do seu amante.
Maria piscou os olhos, silenciosa. Algumas lágrimas rolaram pelo rosto enquanto bradava sem fôlego:
- Eu ainda não sei!

E então o casamento acabou. Não dava mais para continuar. O amante continuava a visitar-lhe nos sonhos...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

crônica de sangue

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Era um domingo de inverno na metrópole. O céu cinza, o chão cinza, as pessoas todas vestidas de cores sóbrias e cobertas de pano até a cabeça – fazia muito frio e o inverno é deveras elegante e severo. Tal era o quadro quando aquela pequena menina, particularmente normal sem qualquer característica notável, resolveu dar uma volta pela rua sem a companhia de sua mãe, apenas para ver as pessoas todas arrumadas. Saiu vestindo amarelo, como um canarinho, e correu pelas frias calçadas como se tentasse voar com o gélido vento de inverno. Sentiu cheiro de café no ar. Suas asas falharam e a menina tropeçou nos próprios pés; caiu no chão e esfolou o joelho, em frente à cafeteria. O duro concreto não lhe poupou a dor tampouco a roupa, já que a calça rasgara e o joelho estava exposto com sua carne arranhada. Sangrava. Por um soberbo acaso, da cafeteria ressoava o prelúdio para piano número quinze de Chopin e a solenidade melancólica da música calou o choro da menina e fez-lhe olhar para o machucado. Algo de mágico acontecia em seu corpo: sua pele se abria e revelava o que havia de mais íntimo em seu interior. A exposição do próprio sangue, que pingava e manchava a pele impermeável do concreto, era quase como uma violação de sua própria intimidade. Por trás de sua pele branca, a capa protetora de seu corpo, havia um organismo que pulsava sangue vermelho. Sua cor forte era ainda escondida pelas veias, de forma que não há nada no corpo que se permita ser vermelho a não ser o sangue. Ser vermelho garante que seja saudável, mas ao mesmo tempo indica seu perigo. Quando exposto, vazado, por uma brecha aberta na pele, o sangue grita que algo está errado e o vermelho é a cor da atenção. Pode existir somente dentro de nós, trabalhando e existindo às escondidas, e no caso da menina, que nunca havia visto seu próprio sangue, ele existia de maneira invisível. Quase se perguntou o que era aquilo saindo de seu joelho depois que caiu. Mas soube, no exato momento em que as gotas de sangue pingavam no chão – e a música de Chopin não poderia ser mais apropriada, pois era também conhecida como “Raindrop” (gota de chuva) – que aquilo era um evento excepcional em sua biologia particular. Não teve medo de seu sangue e nem ficou impressionada com o machucado, apenas intrigada com a aparência daquilo que vive de forma velada. E nas redondezas, o sangue vermelho da menina de amarelo se destacou no meio daquele mar de coisas cinzas.

Essa imagem ficaria ainda na sua cabeça durante muito tempo. Quando cresceu pôde ver qual era a simbologia do sangue em sua cultura, mas nunca a entendeu realmente. Aos onze anos ficou mocinha e teve sua primeira menstruação: a sensação dessa vez era diferente daquela da infância, pois a presença do sangue não era excepcional e sim regulado, fazia parte das engrenagens biológicas de qualquer mulher. Mas qual a diferença daquele sangue que sai do joelho esfolado e o sangue que sai de dentro de seu órgão? Apenas, talvez, o significado de sua manifestação. Mas onde quer que estivesse, qualquer que fosse o seu sangue, aquela cor vermelha era sempre chamativa. Descobriu que é aceitável cair, machucar o joelho e andar com sangue na perna até conseguir limpá-lo – porque o vermelho não deve existir por fora – pois sua causa era acidental, mas não é aceitável se suas roupas se manchem de sangue de “mocinha”, pois a causa não é nada acidental. Pelo contrário, esse sangue deve ser extirpado até quase se tornar invisível, deixar de existir, já que sua existência é considerada impura e digna de infelicidade. Foi o que uma dessas propagandas de absorvente lhe ensinou – e também as crianças da escola, quando apontaram o dedo para ela e riram da manifestação genuína do relógio biológico - quando colocado em confronto com a calça branca e seu símbolo de pureza. Foi aí que sentiu como o sangue, tão alheio a tudo o que lhe é imposto por aqueles do lado de fora, não é apenas fluido essencial e vital de seu próprio corpo, do qual não é preciso ter repulsa, mas algo que pertence a um universo maior de símbolos e significações, dentro de um mundo asséptico. Que pena, pensa ela. Gostava mais quando Chopin entendia os pingos de meu sangue caindo no chão.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

um dia Deus me olhou e disse:

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Cada um traz em si um mundo inteiro. Cada um é responsável por aquilo que é, por aquilo que escolhe, sente, pensa, vive. Somos responsáveis pelo deslocamento de ar à nossa volta e pela energia de nossas intenções. Somos responsáveis pela aura cinza da depressão e do pessimismo ou pela aura amarela da sabedoria e do discernimento. Não vemos o invisível, mas se víssemos, todos nós seríamos como pequenos vulcões, variando nossa aura de acordo com as emoções, criando magnânimas tempestades e maremotos, em constante mutação. Somos os abalos sísmicos, os furacões, as enxurradas que levam sonhos embora, que lavam as almas da dor, as sequoias que tombam pela velhice e pelo vazio, o vento que fere, esfria e grita por toda a noite... mas também somos as flores que desabrocham, o roçar dos passarinhos, o suave correr de um rio, o alinhamento dos planetas, a rotação de um átomo. Trazemos em nós ambas as potências: da criação e da destruição. Trazemos os germes de todos os males, mas também a totalidade de todas as virtudes. Somos a caixa de Pandora e também o seu inverso. A mão que afaga é a mesma que apedreja, basta dar-lhe a potência de tais atos. Uma semente existe enquanto semente, guardando em si tudo o que há de ser, mas basta-lhe um solo infértil para que morra estéril. É nossa a escolha do jardim que cultivamos.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

do destino de Cleópatra

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Cleópatra, vestida de linho quase transparente, não consegue dormir. Está em pé apoiada na janela, o chão frio sem tapetes, a noite fria sem acalento, a lamúria ao longe de dezenas de romanos embriagados e trôpegos na rua de pedras. Pensa em Júlio César, seu amante, seu amor, relembra quando ele estava em terras egípcias e partilhavam da paixão em território dela. Agora era ela que estava em território de Júlio César, ele é quem comandava e nenhuma de suas decisões até agora atenuara a angústia do coração de Cleópatra. Quando escolheria levar a vida ao lado daquela que diz ser sua mais completa mulher? Suas palavras feriam-na: "aguarde que tenho planos para nós", o guerreiro romano dizia, enquanto continuava a dormir no mesmo leito de sua esposa Calpúrnia. Esta era uma batalha que ele não ousava enfrentar.
Sem saber, a imagem que Cleópatra fazia, ali, parada à janela, de seu futuro junto a Júlio César, de uma nova nação comandada pelo filho herdeiro que criariam juntos, criara uma fina névoa de fumaça, que esticava-se pela noite e chegava até o coração de Júlio César, enquanto este dormia profundamente. Cleópatra ligou-os a um fino cordão de promessas, como perfume de incenso espalhando-se pelo ar, e a cada dia que perdia de sono e ganhava em suspiros e amores por Júlio César era mais nitidez e menos bruma ao seu ligamento etéreo. Uma rainha que deixou para trás seu reino e seu povo para atender a um chamado de Júlio César só pode mesmo viver por ele.
Naquela última noite, Calpúrnia teve um terrível sonho sobre o que aguardava o marido se ele fosse ao Senado. César pressentiu a mesma coisa. Como homem racional que era, não dado a mistificações e derrotas, foi ao Senado mesmo assim, deixando de lado a misteriosa e renegada intuição. Lá, entre dezenas de homens que juraram proteção e fidelidade ao Ditador romano mais divino, César encontrou sua morte pela sórdida faca de seus traidores, e seu sangue agora exposto jorrava pelas escadas. Não há nada de divino em um homem descendente de Vênus que sangra em solo político.
O fio que o ligara a Cleópatra rompeu-se, voltando a se dissolver pelo frio infinito. Não mais pulsaria entre dois corações, como um cordão umbilical sagrado que alimentasse o necessário aos dois espíritos. O elo continuaria sólido em Cleópatra, uma vez que ela estaria para sempre condenada a tê-lo somente nas lembranças, mas na outra ponta haveria o vazio, o vazio de uma vida que deixou de ser vivida. Nos céus, Júpiter estende os braços para Júlio César e na terra, Cleópatra abraça um corpo inerte.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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