Terminada a refeição, na malemolência da tarde e no tic tac do relógio a congelar os instantes – grande contradição – pus-me a observar minhas próprias mãos. Eram curiosas, um pouco ressecadas talvez, e as infinitas linhas sutis formavam as marcas dos infinitos movimentos que cada mão fez desde o nascimento. Algumas linhas sumiam quando se esticava a pele, outras se multiplicavam a cada movimento dos dedos, indo do minimalismo ao excesso quase artístico. Para o mais minúsculo dos insetos, minha mão seria um terreno superficialmente irregular, mas ainda assim ultrapassável. Para o mais minúsculo dos microorganismos, cada sulco seria como uma ribanceira em queda livre. As mãos guardam o infinito de um precipício.
Daria para escrever um Livro das Coisas, que seria diferente do Dicionário. Ele trataria das coisas, como a pele com infinitas linhas, e proporia idéias profundas sobre cada uma delas, não meras definições. Mas dado o caminho previsível de cada reflexão, se a proposta atingisse o objetivo de ir longe, o Livro das Coisas se transformaria inevitavelmente no Livro dos Abismos, porque cada coisa tem um limite de visão; depois desse limite é tudo abismo. O que há depois dos elétrons dançantes?...
Abençoada visão limitada. Se a nós fosse permitido enxergar todo e qualquer segredo do Universo, qual seria o tamanho de nossa loucura?

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