sábado, 29 de agosto de 2026

diário de escorpião. 02/11

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hoje é dia dos mortos e acordei perturbada.

um pouco sem saber quanto tempo havia se passado desde a hora em que consegui dormir, enfim.

não despontou o sol, e batia um vento frio na janela.

por sorte é feriado e num dia desses a liberdade cai bem pro espírito sensível.


acordei perturbada, mas viva.

faz algum tempo que meus cinco sentidos andam embolados e dormentes, mas não hoje.

o vento frio rasgava o corpo fresco depois de um banho, o cabelo molhado ficou gelado,

sentia os pingos de uma chuva opaca e rarefeita e o silêncio era o único som da cidade inteira.


hoje busquei outro corpo pra me entregar às sensações que despertavam aqui dentro.

que potente sentir a própria carne!


mas dessa vez não mergulhei nos olhos que me encaravam, não…

quase afoguei da última vez que fui largada à deriva e nem faz tanto tempo assim.


hoje talvez tenha sido o fim de um luto.

posso comemorar, afinal… sobrevivi.

mas o filho da puta me fez nadar pra caralho.

domingo, 16 de agosto de 2026

O infinito das coisas

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Terminada a refeição, na malemolência da tarde e no tic tac do relógio a congelar os instantes – grande contradição pus-me a observar minhas próprias mãos. Eram curiosas, um pouco ressecadas talvez, e as infinitas linhas sutis formavam as marcas dos infinitos movimentos que cada mão fez desde o nascimento. Algumas linhas sumiam quando se esticava a pele, outras se multiplicavam a cada movimento dos dedos, indo do minimalismo ao excesso quase artístico. Para o mais minúsculo dos insetos, minha mão seria um terreno superficialmente irregular, mas ainda assim ultrapassável. Para o mais minúsculo dos microorganismos, cada sulco seria como uma ribanceira em queda livre. As mãos guardam o infinito de um precipício. 


Daria para escrever um Livro das Coisas, que seria diferente do Dicionário. Ele trataria das coisas, como a pele com infinitas linhas, e proporia idéias profundas sobre cada uma delas, não meras definições. Mas dado o caminho previsível de cada reflexão, se a proposta atingisse o objetivo de ir longe, o Livro das Coisas se transformaria inevitavelmente no Livro dos Abismos, porque cada coisa tem um limite de visão; depois desse limite é tudo abismo. O que há depois dos elétrons dançantes?...

Abençoada visão limitada. Se a nós fosse permitido enxergar todo e qualquer segredo do Universo, qual seria o tamanho de nossa loucura?



2011.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

não me arquive

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 “deu saudade”, queria dizer.

ouvi menores atos o dia inteiro hoje,

eu sinto falta, e odeio admitir.

você pode me chamar de louca,

mas só a loucura salva os inquietos de coração, não?

pra mim, loucura maior é morrer sem que as pessoas saibam

que fizeram breve morada no peito de alguém

(penso, aliás, que habitar as memórias das pessoas

é a única maneira de alcançar a eternidade)

tenho pavor de ser anônima para quem eu sinto afeto.

tudo é tão descartável e apressado hoje,

e essa é só uma maneira de tentar não me afogar antes de virar uma memória arquivada no seu celular.

mas se você quer me esquecer,

me avisa.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

7 anos depois

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Eu visito esse blog até hoje e descobri que - pasmem! - ele recebe visitas até hoje (não só as minhas, pois não visitei 335 vezes no último mês).


Eu não sei que mágica é essa?, achei que se evaporaram da Terra todas as pessoas que liam blogs no blogspot, e eu não sou nadica de nada a pessoa que vai ficar "configurando SEOs" para os meus textos serem encontrados em pesquisas, LOGO...


... estou publicando cá em 2026 para dar olá novamente a quem por ventura passar por aqui!


Engraçado que hoje sentei para escrever pensando que eu não queria só deixar palavras guardadas em um arquivo no meu computador. Eu queria fazer igual antes, numa página em branco simples e amigável e clicar depois em "publicar" em uma santa paz e ver ele no mundo, assim, à deriva.


Acho que encontrei.

 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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