segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
com infindável descarinho:
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Tais G. Faraco
Quando ele encostava sua pele na minha, eu sentia Vivaldi. Amávamos como uma orquestra, os clarinetes terminando tudo em um sussurro uníssono. Mas depois de um tempo passei a sentir a Nona de Beethoven e então tudo acabou.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
ao Romantismo:
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Escrito -
Tais G. Faraco
Goethe, meu irmão. Nós, eternos apaixonados pela paixão. Não há de percebermos quão casto tornou-se esse insigne sentimento? Não, não há loucuras e nem mortes decretadas por amor, mas sim, antes de tudo, a maliciosa consciência a fazer-se de sábia ao resguardar os gestos. Que solene é este espetáculo! Vivemos entre os eruditos covardes, temerosos da dor, incapazes de se entregarem ao verdadeiro excesso, à verdadeira virtude que é amar. A dor, caríssimos, existe unicamente como condição por deleitar-se de algo tão puro e febril; ela é, portanto, estritamente necessária. Tal qual a morte que espreita uma abelha depois de sua reprodução; tal qual a vida, que nos permite sentir o dissabor do fim após décadas saboreando a existência. Jovem Werther, sofra. Não só porque do sofrimento vem a melhor escrita, mas porque é só através dele que podemos compreender quão humano fomos. Há de um dia os pobres mortais entenderem essa derradeira paixão que sentimos e, quem sabe então, o lídimo Romantismo deixe de ser palco de céticas risadas...
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
notícia
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Tais G. Faraco
HOMEM PASMA SEGUNDA-FEIRA
Acordou, beijou a mulher na face rubra,
Deixou na caneca a marca da boca muda, comeu o pão adormecido,
Saiu de casa com a maleta cinza, o chapéu meio de lado, a barba por fazer.
Assoviou bossa-nova, a caminho do edifício,
Subiu no andaime, tão logo caiu
Segunda-feira, estatelado no asfalto, atrapalhou o trânsito,
Ainda acordou achando que era domingo.
Desde então, vive desorientado.
Acordou, beijou a mulher na face rubra,
Deixou na caneca a marca da boca muda, comeu o pão adormecido,
Saiu de casa com a maleta cinza, o chapéu meio de lado, a barba por fazer.
Assoviou bossa-nova, a caminho do edifício,
Subiu no andaime, tão logo caiu
Segunda-feira, estatelado no asfalto, atrapalhou o trânsito,
Ainda acordou achando que era domingo.
Desde então, vive desorientado.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
sonhos em um dia de verão
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Tais G. Faraco
Era um fim de tarde, tempo fechado, restos de chuva pelo asfalto. Ainda dava pra sentir o cheiro de grama molhada e o céu clareava um amarelo escondido. Itália. Faltava era um violino, chapéus, mesas de café pelas calçadas, italianas e seus vestidos, acompanhadas de homens altos. Depois, virando a esquina, o claro do céu já estava escuro, cinza, as nuvens fechadas torcendo algumas últimas gotas. Inglaterra. Faltava eram cachecóis, luvas nas mãos a segurarem um copo quente de chocolate, risadas sobre uma varanda de frente para a metrópole. Mais adiante, o dia foi cedendo já seu lugar à noite, a chuva se esgotava de tanto molhar e a brisa ia surgindo fresca, com as nuvens adormecidas. Espanha. Faltava era um restaurante decorado com velas, fonte no meio de uma pracinha com casais se divertindo solitários, vendedores com suas frutas e peixes frescos.
Aí a noite pintou tudo de preto, a lua não surgiu e o que faltava era voltar caminhando para a casa com passadas lentas de quem precisa tragar tudo uma última vez antes de parar de sonhar.
Aí a noite pintou tudo de preto, a lua não surgiu e o que faltava era voltar caminhando para a casa com passadas lentas de quem precisa tragar tudo uma última vez antes de parar de sonhar.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
"poema é coisa que se faz vendo"
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Tais G. Faraco
O cego se apóia no cego e juntos começam a andar.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.
domingo, 30 de outubro de 2011
tupiniquim
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Tais G. Faraco
Rodou o LP de Martinho da Vila, saiu sambando pela casa. Todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba. Contaminou-se pelo ritmo, trocou por Jair Rodrigues e foi à janela paquerar. Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? O que tem é que à janela não conseguiu a atenção desejada, quis ouvir a voz de Mario Sousa Marques Filho: reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Achou que o incidente na janela poderia ser bem descrito por Noel Rosa, trocou o LP. E eu pergunto, com que roupa?, com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou. Depois, sem fôlego para sambar, mudou de disco, Chico Buarque, exigia sentar na poltrona e ler Clarice com um cigarro entre os dedos. Mulher, você vai gostar, tô levando uns amigos pra conversar. E depois de tudo isso o que pede é botar Cartola, porque mesmo com samba chega a hora inadiável de se angustiar na varanda, com o pôr-do-sol a ouvir a última melodia do dia. Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó...
domingo, 16 de outubro de 2011
blues
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Tais G. Faraco
Começava devagar.
Saboreava o gosto puro de cada nota com a paciência de um meticuloso em busca da iluminação. A iluminação musical. E quando pensava nisso o calor ia subindo e emanava pelos poros... e então as notas exigiam amor e eram tocadas como mulheres...ia subindo....subindo...até atingir o pico, a libertação clássica de tudo o que se prende, era uma viagem mental e corporal, dedilhava com a mesma rapidez com que o suor escorria da sua testa, agora envergada, tentando alcançar as notas mais profundas da composição que era antes de tudo sua própria alma que ele precisava cavar cada vez mais fundo até encontrar aquilo que todos passam a vida procurando aquilo que as fazem perder o ar e o chão até se sentirem caindo em um abismo de total compreensão dos sentidos onde o mínimo toque de pele arrepia a espinha enquanto tudo isso é engolfado pelo som febril que nasceu nas ruas e nos becos onde se encontram a mais sincera e profunda arte já feita porque representa os olhos da alma boêmia alma essa mesma alma que agora se enche de iluminação por ter enfim encontrado sua sintonia com as notas musicas expelidas agora em decrescente sensações...que vão se rebaixando...tornando-se inaudíveis...mas totalmente sensitivas...o som do mais rele ser humano pisando nessa superfície fria...quando por dentro está cultivando calor...e tudo termina na última nota, angustiada, por onde terminam todos os fins existentes.....
Saboreava o gosto puro de cada nota com a paciência de um meticuloso em busca da iluminação. A iluminação musical. E quando pensava nisso o calor ia subindo e emanava pelos poros... e então as notas exigiam amor e eram tocadas como mulheres...ia subindo....subindo...até atingir o pico, a libertação clássica de tudo o que se prende, era uma viagem mental e corporal, dedilhava com a mesma rapidez com que o suor escorria da sua testa, agora envergada, tentando alcançar as notas mais profundas da composição que era antes de tudo sua própria alma que ele precisava cavar cada vez mais fundo até encontrar aquilo que todos passam a vida procurando aquilo que as fazem perder o ar e o chão até se sentirem caindo em um abismo de total compreensão dos sentidos onde o mínimo toque de pele arrepia a espinha enquanto tudo isso é engolfado pelo som febril que nasceu nas ruas e nos becos onde se encontram a mais sincera e profunda arte já feita porque representa os olhos da alma boêmia alma essa mesma alma que agora se enche de iluminação por ter enfim encontrado sua sintonia com as notas musicas expelidas agora em decrescente sensações...que vão se rebaixando...tornando-se inaudíveis...mas totalmente sensitivas...o som do mais rele ser humano pisando nessa superfície fria...quando por dentro está cultivando calor...e tudo termina na última nota, angustiada, por onde terminam todos os fins existentes.....
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