quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

cabra diabo

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- trouxe as vacas, mas perdemos quatro
também trouxe as ovelhas, mas as raposas pegaram três
as galinhas saíram perdendo: morreram seis
mas nossos homens, mais fatigados que todo o resto
restaram todos, embora a fome e a pobreza
façam com que morram um a um, assim como também
morreram as vacas, as ovelhas, as galinhas

O capataz pousou-lhe a mão na cabeça, abençoou-o com um olhar doce de piedade e suspirou fundo, como se o ar lhe doesse:

- é o fim dos tempos, meu bom homem. É o fim dos tempos.

E dizendo isso, despediu-se com um longo aceno de mão, como se aquele fosse o último momento antes do final dançante das luzes do apocalipse.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

lótus

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Eu te quero. Não, pensando bem, não te quero. Quero é tudo isso que te forma. Sim, toda essa calma, todo teu brilho. Quero o jeito com que lida com a vida, as tuas manias, teus vícios. A materialização do teu ser junto do meu, é possível? Então na verdade eu te quero, quero te engolir, quero ter você pulsando nas minhas veias, presente em cada ramificação do meu corpo, cada respiração. Quero te ter em toda a plenitude, todo o excesso, para me fartar até não poder mais e quando chegar a hora em que tudo acaba eu acabe no chão, desgastada, enquanto você vai embora pelo sopro, deixando dolorosamente minhas veias secas, sem vida, sem sopro, sem nada.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

são paulo

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Quando me dá agonia, eu como. Abro a geladeira, penso mais do que eu deveria pensar, reflexões filosóficas enquanto me indago o que vou comer, que combinação excepcional posso fazer com a comida que tenho. Quando preciso pensar, mais do que abrir a geladeira, eu tomo banho. Aquela água quente caindo na pele, amaciando os músculos, o silêncio, só você e a água. O chuveiro já me viu cantar, chorar, falar sozinha, ter idéias esplêndidas e anotar na parede úmida ou no box para não perdê-las. É o lugar onde você coloca a cabeça em ordem. Quando não consigo desenhar, eu escrevo. Costumava ter com os traços uma relação mais forte do que com as letras. Era como se mão e lápis fossem uma só, agora minha companheira mesmo é a caneta. O lápis virou amante, não muito funcional, que só procuro quando sinto que dessa vez o desenho sai. Amante desgastada, enferrujada, por anos de prática quase integral com a escrita.

Quando estou com tédio, vou ao supermercado. E distraidamente, perco uma hora do meu dia entre prateleiras e prateleiras, em busca do menor preço, das ofertas, de algum produto diferente, tudo em meio a um monólogo inteiramente pessoal e abstrato. Vou ao supermercado também para pensar na vida ou em algo que está me empacando, como a idéia para um roteiro. Se o banho, que é curto, não adiantou, vou ao supermercado. E penso lá.

Se nada resolveu, eu viro um ser humano amorfo. Que senta, anda, olha e come meramente porque são funções vitais. Mas entre isso e uma alga não há sequer uma diferença. Sentar no sofá e passear pelos canais, até perceber que na última meia hora você não fazia idéia do que estava assistindo porque sua cabeça estava longe dali. Perceber que o teto de seu quarto tem rachaduras que lembram mangás. Sentir-se íntimo dos objetos da casa, que parece que te olham no seu profundo silêncio contemplativo e você quase os ouve dizer "eu estou me divertindo muito e você?". E quando você sente isso, a única coisa que deseja é virar um vaso de mesa, sem obrigações nem funções vitais. Um vaso, que observa tudo, sem sentir dor por estar na mesma posição há tempos, sem sentir fome nem sono. Pensando bem, quase Deus. É isso que você quer ser.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

parênteses

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Então você fica quase inconsciente, quase surdo, só dando ouvidos à sua cabeça. Ela dita as palavras e você só as coloca no papel, na ordem em que vão surgindo mentalmente. No final, o texto todo pode não fazer sentido nenhum, mas daí é só você dizer que seu estilo é parecido com o de Caio Fernando Abreu que todos se calam com um suspiro de alívio, refeitos do susto por acharem que você provavelmente não teve aulas de coesão e concordância. Bobagem. É tudo uma bobagem. Escrever é pura masturbação do escritor. Um prazer só dele e criado para ele, os leitores são meros passageiros que gostam de dar uma volta nesse navio. Ou barco. As convenções ortográficas e linguisticas podem ser arbitrariamente suspendidas se assim o autor quiser, sob uma justificativa qualquer. "Ah, é o pós-modernismo contemporâneo", "Pois o comunismo estético...", "Meu estilo é baseado na livre-associação de palavras...". Ninguém discordará, pois a escrita de alguém é a coisa mais pessoal já publicada. Os autores só lutam para tornar sua história a menos parecida possível com uma piada interna.

um casamento harmonioso

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- Cale sua maldita boca, mulher. Vai pra cozinha, faz alguma coisa, mas me deixa em paz, puta que pariu.

- Quando foi que me casei com você?

- Faz muitos anos que eu te aguento.

- Só pra eu me lembrar de não cometer esse erro novamente quando eu pegar a arma e atirar nessa sua cara de porco velho.

E saiu batendo os pés.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

a morte é uma arte

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Estou com a garganta seca e a cabeça rodando. Não sei quando conseguirei ficar lúcido novamente. Eu gostaria de poder parar o tempo por alguns instantes, só para eu conseguir sair da cena de fininho, sem ninguém notar que estive lá. Tudo é mais poético na ficção.

Deveriam ensinar na escola como é matar alguém. Como é sentir o sangue quente nas mãos, a pulsação rápida de quem está tendo aquele último flashback da vida nos dois segundos antes da morte. Vida e morte existindo ali, quase simultaneamente.

E ninguém ensina também o que você deve sentir depois. Quando o último sopro se foi, quando você sente aquele frio estranho na espinha por algo que está abandonando de vez aquele corpo – a alma do sujeito, talvez, indo embora. E o vazio. É irônico. Você mata alguém, mas parece que matou você mesmo.

Cheguei em casa sem nem lembrar o caminho que fiz. Só ouvia vozes na minha cabeça, do padre me dizendo que aos oito anos de idade eu já deveria confessar, da minha mãe dizendo que os maus meninos vão para o inferno, da minha ex namorada gemendo que a vida era boa demais enquanto eu a deixava louca embaixo dos lençóis. A vida é uma merda, e matar alguém só piora tudo.

Beber, fumar, dormir, nada me faz esquecer dos olhos daquele desgraçado. Dos olhos de desespero. Ninguém que não está prestes a morrer tem um olhar assim. Acho que por isso estou desse jeito, tão vulnerável. Não esperava encontrar piedade nem sofrimento vindos dele, aquele machão. Maldito. Ainda presente mesmo morto.

E como sou dramático, é claro que ficarei lúcido novamente. Homens viram mafiosos bandidos porque sabem que matar alguém é como uma droga. A primeira vez é sempre inesquecível, você sempre vai querer de volta as sensações únicas e prazerosas. Porque o sangue quente, a carne se rasgando, o último tremor... Céus, não existiriam açougueiros no mundo se eles não se sentissem donos de si rasgando um porco ao meio.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

condição única do ser humano

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Cara consciência, sinto muito, mas não consigo dormir.

Pretendia um momento de descanso, mas você não descansa momento algum. Sempre frenética, sempre ligada. Às vezes incomoda, sabia?

Eu terminei de ler um livro hoje. Terminei, assim como se termina uma refeição. O livro era interessante, a história me prendeu, mas acabou. Não preciso que você me lembre do livro a cada momento. Não preciso me lembrar da história quando estou lavando louça ou, pior, quando gostaria de ter um orgasmo com meu namorado. E isso vale para tudo o que você resgata nas horas mais impróprias: contas a pagar, ligações a fazer, o que me esqueci de comprar no supermercado ou que roupa vestir amanhã.

Portanto, vim formalmente pedir um descanso. Uma trégua. Um tempo de silêncio. Você pode fingir que está em um mosteiro. Pode fingir que cortaram sua língua e que você não tem mais nada a fazer a não ser ficar um tempo em silêncio. Um longo tempo, por favor. Preciso parar de sentir você maquinando tudo o tempo inteiro. Parece que não existe mais nada, não existe coração nem alma nem corpo, só cérebro. Um cérebro inquieto, infeliz com tudo o que vê. Para quê isso?

Só o que quero é paz. Não quero mais responder que não estou bem por motivos que só você conhece, que só você traçou assim. Quero uma liberdade talvez inédita, mas agora necessária.

Então, de todo o meu profundo coração – que você, invariavelmente, nem escuta mais -, fique em stand by. Retornarei a falar com você algum dia.

E boas férias.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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