quinta-feira, 18 de abril de 2013

as pequenas metáforas do cotidiano

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Pense em si mesmo como um saquinho de chá. Há muito dentro de você, que com água quente é capaz de se dissolver em deliciosos gostos e sabores para quem te escolher. Pense na água quente como o amor. Aquece a alma e deixa teu melhor agradável de saborear... Mas saquinhos de chá também estragam. Já viu um? Dentro destes há tanta secura que não há água quente capaz de disseminar sua essência. Ficam lá, sem jamais levar seus caprichos a ninguém, sufocados em si próprios. Para estes saquinhos, a gente pergunta: e a quantas pessoas você deixou de oferecer o teu mais íntimo segredo? Jamais responderão. Porque nunca se tornaram chá.
Nunca deixe o que existe dentro de você secar...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

êta, vidinha mais ou menos!

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A casinha na beirinha do morro ficava sempre de janelas escancaradas, como grandes olhos abertos para a vida. O vento fresco da manhã circulava trazendo os sussurros de bom dia das árvores e dos passarinhos. Acontecia sempre de acordar com um samba ressoante pela casa e o bem-te-vi que saracoteava no batente da janela todo dia atrás de migalhas de pão até arriscava alguns passinhos de dança. Gostava de aparecer por ali e se o samba acabasse antes, ele não ficava triste não, sinfoniava um allegro. Passarinho desses não se prende na gaiola, deixa é solto para que possa ir cantar em outras janelas, e se voltar é por vontade própria...No fim da tarde, aparecia novamente para dizer adeus e que logo pela manhã voltaria. Se juntava aos seus e voava longe, longe, formando lindos desenhos pelo céu. As árvores sacolejavam seus últimos espasmos, as fracas folhas caíam ao chão e se espalhavam pela terra, de onde renasceriam assim que tudo tivesse seu tempo. A dama-da-noite começava a se embelezar para seu encontro com a lua e o seu perfume inundaria a tudo e a todos de puro amor. A casinha ainda não fechava suas pestanas, pois à noite recebia novos visitantes: havia as corujas, sérias e formosas, e para elas cabia ouvir lindíssimas sonatas para piano. Eram mais ressentidas que os pássaros: se a música acabava, iam embora com um pio magoado. Mas também sempre voltavam. E quando o céu estava cheio de olhos piscantes, as janelas se fechavam e tudo se preparava para dormir no melodioso silêncio da eternidade.

quinta-feira, 14 de março de 2013

fantasia do equilíbrio

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Ele fumava bem, mas escrevia mal. A vida tem dessas compensações. Dizia as palavras e elas voavam com o vento, levadas pela fumaça do cigarro. Aprendeu, então, a baforar fumaças de poesia, soltar aneis de onomatopeias e dissipá-las em trava-línguas. Arranjou amantes apaixonadas pelo silêncio literário desse homem que só fumava suas ideias. Ele presenteou-as com flores e suas palavras eram escritas em um bilhete, pois assim não se perdiam. Com o tempo, porém, as palavras se apagavam do papel e suas amantes largaram-no por ele já não ter mais nada a dizer. Abandonado, ele não fez nada. Sorria bem, mas amava mal. A vida tem dessas compensações.

quarta-feira, 13 de março de 2013

excêntrico Chico

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Quando dá meia-noite, Chico se levanta, tropeçando em seus próprios pés, e vai até a porta da sala. Destranca e sai de sua casa ainda de pijamas, fechando a porta atrás de si. Depois, parado na soleira, bate na porta de sua casa, como se fosse um visitante. Bate uma, duas, três, quatro vezes. Chico faz isso religiosamente, todos os dias. Seria sonambulismo se ele não estivesse consciente nos momentos de sua fuga banal. Chico se vê como um visitante, uma companhia para suas noites solitárias e sente-se ingenuamente feliz com isso: visita a si mesmo. Abre a porta para si e sorri satisfeito pela recepção tão agradável de seu eu dissociado. Depois de todo esse processo, Chico volta a dormir sentindo-se menos solitário pela visita recebida durante a noite de sua própria visita. Quando acorda pela manhã, não vê ninguém. O sol não ilumina outra pessoa senão ele, é sua sombra que vê pela casa durante todo o dia e à noite, já fatigado de tantos vultos silenciosos e incomunicáveis, Chico se deita à espera da visita que vem sempre na hora dúbia. É a sua tentativa de ao menos tornar sua noite de sono seguramente tranquila.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

minha personagem interior

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Perdoem-me os que esperam aqui, agora, uma crônica sobre o cotidiano ou um conto iguais àqueles que já escrevi, com uma história em terceira pessoa e personagens ilustrativos. Hoje, não há uma história. Para não dizer que não há personagem, na verdade há uma sim: ela, que habita a minha cabeça e é dona de muitas inquietações. Fico a me perguntar quais os motivos para tanto, mas receio que ela também não sabe me dizer. Vez ou outra, pobre pequena, sofre de profundas overdoses irracionais. A sua droga vem dela mesma, e é o excesso das sensações. Ultimamente, tem sentido diariamente seus efeitos. No entanto, sabe que a culpa é dela mesma. E o que faz com essa consciência? Nada. Às vezes teimo com ela por isso, onde já se viu gastar tanta energia em coisa que não vale a pena? O problema é que valeu, um dia, e se hoje não vale mais é uma ideia difícil de ser desenraizada de seu coração. É como assistir a podridão de uma maçã e chegar o dia em que você quer comê-la, mas saber que já é tarde demais e ter de jogá-la no lixo sentindo na boca o gosto do que ela poderia ser. Como ela vive em mim, por conseqüência acabo sofrendo as conseqüências do que ela sente. Assusta-me a sua imensa capacidade de relembrar o passado e se permitir viver nele nas horas frustradas, revirando e revivendo cada mínima lembrança. Acabo sentindo fortes dores de cabeça, sem nunca entender o real motivo delas. Acho que agora sei: é essa criatura que vive em mim, que vive de minhas memórias, que me alimenta de seus desejos frustrados, que faz rolar no meu sangue somente o néctar de sucessivas decepções. Ando cansada disso tudo, o sangue já está fraco e minha cabeça declina. Não é mais uma boa moradia. Ela me falou hoje, quer ir embora. Porém, cumpre aviso prévio, sem prévio prazo, e só estou aguardando o momento triunfal em que sairá de mim para que eu possa renascer novamente.
Será uma perda significativa, no entanto. Uma parte de mim, cheia de vícios e costumes por vezes venenosos. Relembrei a história de nós duas, e fiquei pasma de perceber que data de muito tempo, desde quando eu era uma criança sonhadora e consciente. A nossa relação se tornou desgastante já precocemente, quando eu estava nos meus 12 anos e, por capricho dela, sofri uma desilusão amorosa silenciosa, impossível e digna somente dos adultos. Nunca a perdoei por ter-me talhado desde muito nova ao seu altar do amor, por ter-me feito à mercê desse sentimento, prioritariamente. Preferiria ter me preocupado com minhas bonecas.
Este texto é para exterminá-la de dentro de mim.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

o verão tragicômico de Tereza

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Eram quase seis horas da tarde de verão. Com um pulo ela encarapitou-se na grade da varanda e ameaçou pular.

- Um passo a mais e eu me jogo! – bradou para o namorado, parado na soleira da porta e totalmente surpreso com a loucura.

- Mas vai pular por quê?! O que aconteceu? – essa era boa, a namorada ameaçar pular do segundo andar e ele nem desconfiar do motivo.

- Você não me ama! – e tirou um pé de apoio.

- Pare com isso! Sobe de volta e a gente conversa! Não cometa essa loucura, você sabe que não tem sentido algum!

- Você nunca me amou! – e soltou dois dedos.

Ele estava apavorado. Dava um passo e ela pulava ou ficava parado berrando aos ventos?

- Não faça isso!

O relógio da igreja bateu seis horas. Movidas pelo final do expediente e pela curiosidade, as pessoas começaram a se aproximar. Uma a uma, iam se amontoando nas esquinas, cochichando uns com os outros o que estavam vendo. Depois foi a vez dos moleques surgirem sabe-se lá de onde e correrem para debaixo da varanda da moça. Ela, felizmente para os marmanjos, usava vestido.

- Dona Neusa, olha o que a Tereza está fazendo! Tem cabimento isso? – esbravejou o rapaz para uma das senhoras paradas na esquina da rua.

- Minha nossa Senhora, ela está ficando louca! Não faz isso, minha filha, do segundo andar no máximo você quebra as pernas e aí fica inválida, não é pior? – respondeu a velha, sacudindo sua bengala, ao que foi acompanhada por muitas outras que brandiam suas bengalas.

- Foi o que eu disse, dona Neusa, mas ela não me escuta.

Tereza, enganchada na grade da varanda, olhou-o estupefata. O que as outras pessoas tinham a ver com isso? Era para ser um show só dele.

O rapaz percebeu que a vizinha também se aproximava para observar o ocorrido e ele a chamou.

- Veja a senhora o que a Tereza está fazendo! Ameaça pular porque não a amo. Diz, senhor Benedito, não fui à sua loja comprar flores outro dia para presenteá-la?

- Corretíssimo rapaz, e não há nada mais amoroso do que presentear com flores – concordou o marido da vizinha. As pessoas que ouviam a conversa embaixo, na rua, também concordaram.

- Meu jovem, conte a ela do meu marido! Certamente com o odioso exemplo ela vai mudar de ideia!

- Saia daí, Tereza, sua mãe não vai gostar!

- Tereza, estou ligando para seu pai! O velho vai infartar!

- Pule logo, se é para duvidar de rapaz tão generoso!

- Desse jeito vamos achar que quem não ama é a senhora! – e riram-se todos.

Cansada de tanta zombaria, Tereza gritou:

- Me deixem em paz! – e olhou com olhos desconsolados para o namorado - Por que é que você tinha que fazer isso?

- Tereza, meu amor, você também decide pular da varanda às seis horas da tarde?

sábado, 24 de novembro de 2012

um belo dia, o surrealismo

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Hoje é mais um daqueles dias. Você acorda e sente que giraram a chave da sua cabeça em "realidade" para "surrealismo". Nada faz sentido. Nem a coisa mais óbvia e banal do cotidiano faz sentido. E é como se tivessem lhe arrancado seus olhos para botarem no lugar os olhos de alguma águia, que encarapitada no alto do galho de uma árvore observa qualquer coisa se mexer. E agora a águia cedeu seus olhos para você ser capaz de observar o que ela observa. Você de repente se torna mais sensível a qualquer coisa que exista e que passe por você derramando água da beirada do asfalto. Tudo lhe incomoda, porque você é capaz de ouvir cada mínimo som, e sentir cada mínimo cheiro, e a pensar cada mínima coisa. Como quantos carros correm por você, e como em cada carro há alguém, e cada alguém carrega uma vida inteira consigo. De repente são muitas pessoas. Muitas vidas. Muita energia rodando e rodando, e sua cabeça fica cheia disso tudo e dói insuportavelmente, para mostrar para você que é para parar de pensar. Mas adianta? É inconsciente. Você não está pensando em nada quando aperta o sinal para o ônibus parar e espera as portas se abrirem. Não pensa em nada, mas aí vem um cheiro de gozo que muda toda a sua percepção mental. Você começa a refletir de onde vem o cheiro, e a gripe não lhe deixa distinguir exatamente se de algum gozo mágico ou do abafado de uma chuva seca. Chega em casa com o corpo quente depois de ter andado muito e também não sabe se o calafrio vem da gripe ou do surrealismo. Nada faz sentido. Talvez só Buñuel fizesse sentido nesse exato momento. A metade da lua no céu, por que não fica inteira de uma vez? E aquela mancha escura atrapalhando a pureza do brilho dela, como somos capazes de enxergá-la? A lua está muito longe. E você mal distingue o rosto de alguém a cinco metros de distância se não usar óculos. Nada faz sentido. De repente as janelas dos prédios, com as luzes acesas e os ventiladores de teto girando, parecem que abrigam pessoas invisíveis. E essas janelas não são nada mais do que meros caixotes velhos que empacotam seres humanos, e do chão parece mesmo que não existem. É contraditório, porque há poucas horas sua cabeça não suportava pensar na imensidão de vidas que vivem no mesmo lugar. Mas como não enxergamos essa vasta teia de relações - oh, benção! - tudo parece estar impregnado de um profundo, melancólico e angustiante vazio. Alguma vez alguém escreveu a palavra vazio acompanhada de algum plácido adjetivo? Mas como esse é um daqueles dias, em que nada faz sentido, a única conclusão que se chega, ao fim do dia, é que aspirar o ar lá fora faz a mente ficar conturbada. Porque em cada partícula do ar há a partícula de alguém que morreu, e o tempo todo você respira ideias alheias, que entram em você e embaralham tudo o que você é. Quando se aspira o ar lá fora, você se torna outra pessoa...
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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