Primeiro me olha de soslaio, sente a nudez de meu pulso quando tomares minha mão nas tuas.
Finge que erras o beijo no rosto e beija o canto de meus lábios, prende-me o colar no pescoço e passa os dedos pela pele.
Abraça minha cintura e sente a respiração fraquejar.
Esfrega o teu suor no meu, faz juras de amor sussurradas ao pé do ouvido.
Não deixa as cartas com teu cheiro. Fecha a porta, Primo Basílio, para que meu amor não te pegues.
ps.: originalmente, Primo Basílio terminava com "para que meu marido não te pegues". Porém, relendo-o quatro meses depois, senti o terrível e ameaçador impulso de trocar por "amor" ao invés de "marido". Fique assim, pois, o desejo satisfeito do meu íntimo com a ambiguidade que agora deixou...
quinta-feira, 17 de maio de 2012
três minutos e meio
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Tais G. Faraco
- e meu marido que me deu de dia das mães uma calça branca? Não dá nem pra sentar direito que mancha, não gostei, falei ai vou trocar, minha mãe chiou e disse que eu deveria dizer que gostei, mas pra quê? Eu tô assim. Ele esses dias deixou toda a mesa do escritório desarrumada, falei Carlos Alberto arruma isso que vem visita, ele não arrumou, e a minha vergonha! Também, não me dá dinheiro. Tudo bem, eu me viro com o que eu ganho, mas preciso fazer pé e mão, ai você viu meu pé? A manicure cortou aqui, como ficou feio...Tive que comprar um sapato quando saí de lá, passei na loja e vi essa bota maravilhosa. Sabe quanto? Baratíssima. O Carlos Alberto ficou uma arara, disse como você pode gastar tanto assim? Ué, essa bolsa aqui eu paguei dez reais, como é gastar tanto? Agora, com cabelo eu tenho luxo! Ai, tô com uma fome, corri o dia inteiro hoje, só parei agora, menina. Vamos comer? Ali do lado fazem um café que dá vontade até de rezar, aí você pede um croissant e ó, dieta vai por água abaixo. Ontem engordei 1 quilo! Mas ué, eu como maçã e bebo água o dia inteiro! Daí é comer uma sopa que parece que a gente tá estufada. Você viu a vizinha, como tá gorda? Remédio. Fica aí tomando remédio pra emagrecer, é um veneno, não pode fazer isso. Shake tudo bem, eu tomo aquele da Luciana Gimenez, é natural, gostoso e resolve. Ai, a Luciana tá tão bonita né? Um dia vi um vestido que ela usou, tudo de bom! Era verde-água assim, com uns brilhos, maravilhoso. O Carlos Alberto falou nossa que mau gosto, eu nem respondi, às vezes me pergunto por quê é que a gente está junto. Mas sabe... quando namorávamos era tão bom, o noivado também foi bom, depois do terceiro ano de casamento a coisa parece que esfriou, caiu na rotina. Acho que tô precisando de uma viagem. Campos do Jordão? Mas nem morta, muito frio! Não suporto pé congelado. Quero é praia, pegar uma corzinha, que essa cor de dona de casa não dá. Aí ó, falando nele, o Carlos Alberto me ligando, vou ali atender e já volto, aposto que ele quer pedir que eu busque ele no trabalho. Ai ai...Alô?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
poesia imprestável
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Tais G. Faraco
O sol nasce e inunda de uma luz brilhante a janela de seu quarto,
seus olhos se queimam assim que você os abre,
pois a perfeição é bela demais para ser vista...
sofre? não é perfeição, é cinismo,
você estava perdendo as esperanças na noite passada,
se revirou nos lençóis até pegar no sono,
horas antes do sol nascer.
ele nasce, e queima seus olhos.
e não há nada de reconfortante na risada celestial
da sua cara bestial
de quem acreditava no poeta que dizia que sol é alegria, alegria, gloriosa
que alegria?
é uma claridade, ofuscante
só pra te lembrar do que você não consegue esquecer.
seus olhos se queimam assim que você os abre,
pois a perfeição é bela demais para ser vista...
sofre? não é perfeição, é cinismo,
você estava perdendo as esperanças na noite passada,
se revirou nos lençóis até pegar no sono,
horas antes do sol nascer.
ele nasce, e queima seus olhos.
e não há nada de reconfortante na risada celestial
da sua cara bestial
de quem acreditava no poeta que dizia que sol é alegria, alegria, gloriosa
que alegria?
é uma claridade, ofuscante
só pra te lembrar do que você não consegue esquecer.
domingo, 6 de maio de 2012
para um desconhecido
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Tais G. Faraco
É inquieta a sensação de ter te perdido de vez na infinitude de possibilidades nessa metrópole. Você, um completo desconhecido: nem cheguei a te conhecer. De você, ficou apenas a lembrança dos cabelos loiros e da pele branquíssima... Estava a centímetros de mim, por que não nos conhecemos? Vai que eu descubro que ouve Led Zeppelin, detesta macarrão e nunca corre quando toma chuva? Ou então que é surfista frustrado, amante de cinema e prefere Engels a Marx? Nunca irei saber. Muito menos seu cheiro, o som da voz, se canta nas letras ou se fala baixo, a cor dos seus olhos vistos bem de perto... Qual seu signo? Parece Áries, pelos ombros pesados e andar sonhador. Está vendo o que perdemos pela simples comunhão não aceita do silêncio? Poderíamos estar tomando um café.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
o gosto desmedido
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Tais G. Faraco
A hora que o trem passar, eu vou estar ali a milímetros do abismo da plataforma só pra sentir o frio de ansiedade e o vento nos cabelos e o corpo ameaçar ir para trás mas a força excitante do medo paralisá-lo na mesma posição cambaleante. E quando o trem abrir as portas, antes de entrar vou olhar o vão no chão e sentir aquela ansiedade novamente de quase cair no abismo e talvez até ameace um passo em falso pra fazer valer a pena entrar na locomotiva e sair da segurança estática da plataforma, sempre apática, sempre estática... E a loucura que corre pelos trilhos também corre no meu sangue e eu compartilho com você pelos poros cada vez que você me toca no exato instante em que morremos para renascermos logo em seguida, aliviados. A vida é um trem, um trem azul.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
sobre um sonho:
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Tais G. Faraco
Era o caos, a verdadeira desordem da existência. O asfalto rachava-se ao meio e era possível ver o magma da cor do inferno. As milhares de pessoas não seguiam mais as leis inconscientes, agora vagavam sem rumo e avançavam por lugares antes proibidos. O céu - não sei como era o céu - porque todos olhavam o chão, sempre tão resguardado e de repente tão exposto, aberto como uma ferida. Como eram as entranhas da Terra? Os que não tinham nada a perder tentavam ganhar: inúmeras barracas espalhadas ao longo das calçadas já quebradas, entupidas de pequenos produtos sem utilidade, ofertavam apenas no silêncio. Já não era preciso gritar, já não era preciso falar, era um desespero mudo. Como quando o medo cala a voz. E alguns tentavam levar aquele dia apocalíptico como se fosse apenas mais um dia comum. Era meu pai, que andava ao meu lado despreocupado e em paz, sem o anseio irracional do fim. Carregava três filmes clássicos em uma mão, "para vermos mais tarde", e com a outra me guiava por entre a multidão que não tinha nada de turista. Eu voltava os meus olhos desesperados e ele me devolvia os seus azuis calmos, por detrás dos óculos. E quando eu via o inferno debaixo da terra, eu apertava sua mão com força, e ele não me dizia nada porque não precisava ser dito...
terça-feira, 10 de abril de 2012
desesperança
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Tais G. Faraco
Disseram-lhe desde muito criança que trevo de quatro folhas dava sorte. Passou muito tempo procurando no meio do asfalto, no meio da grama, na moita e no chão. No dia que achou, fez do trevo de quatro folhas três, duas, uma, nenhuma folha e só uma minúscula haste, que jogou no chão e continuou a vida.
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