Lua alta, cheia
e amarela, na altura das árvores mais distantes, só não beija o solo porque é
privilégio do pôr do sol. Cabelos emaranhados e pretos, anda nua na grama
fresca contando as estrelas do céu. Ouve alguém xingar ali perto, perde a
conta, vai ver quem é e encontra Arthur Rimbaud deitado olhando para a lua.
Reclama que dói os olhos de tão grande, e se grande de repente fossem os olhos?
Aí a lua seria pequena e a dor menor ainda. Senta ao lado de Rimbaud, mas a
grama faz a perna nua coçar, ninguém disse que a poesia não alivia mal algum. Rimbaud
começa a conversar intimamente com o satélite em versos decassílabos, e
como a perna coça insuportavelmente e teme mais ainda as formigas, ela se enche
e volta a caminhar pela clareira da floresta. Está maldizendo o simbolismo dos
franceses de cabelo comprido – a coceira é sinal de quê? – quando tropeça em
algo caído no chão. É alguém. Fita o homem estendido no chão, pele vermelha de
tão bronzeada, cabelos loiros sujos, ele resmunga “você me chutou, mas tudo
bem, yeah, tem valium por aí?”, peito cortado, só pode ser Iggy Pop. O que Iggy
Pop estaria fazendo deitado na floresta? “Está olhando a lua também?”, pergunta
a de cabelos negros, “foda-se a lua, preciso de um pico”, ele nem abre os
olhos. Ela diz que vai arranjar e some de fininho, não gostaria de vê-lo
berrando Raw Power! em cima de sua nudez. Dessa vez melhor caminhar por entre
as árvores. Pára na frente de uma árvore tão grande quanto todas as árvores juntas da floresta, o tronco tão grande quanto a lua. Daria pra entrar dentro dela e fazer uma festa com Rimbaud e Iggy Pop. Festa na árvore. Estava quase abrindo a porta do tronco da árvore quando sente um farfalhar de grama ao seu lado, ela se vira para ver quem chega mas a pessoa está envolta em uma aura ofuscantemente brilhante e não enxerga nada. O ser de luz coloca uma mão no ombro da mulher nua, sua aura se esvai e ela enfim consegue ver: Jesus Cristo. Assustada pela presença grandiosa, ela não diz nada, fecha os olhos e nesse instante ouve a voz de Jesus Cristo em sua mente: Continue a caminhar, pare à beira do abismo, e apague tudo o que escreveu; está pronta para iniciar sua nova fase que rascunha em seu espírito. A mulher nua absorve essas palavras, abre os olhos e só enxerga a relva verde, estendendo-se à sua frente. Põe-se a caminhar em direção à lua alta, cheia e amarela, e quase viram uma coisa só, pra quem vê de longe.
domingo, 1 de julho de 2012
pequeno coro bêbado
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Tais G. Faraco
"Madrugada
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem"
Samba pela avenida, a dois passos da ponte a noite pode se tornar infinita. Lembra Eduardo Marciano nos acessos boêmios de cantar trepando nos galhos de concreto. Abrir os braços e ocupar toda a rua, abraçar toda a cidade, amar todos os indivíduos, expressar para todas as janelas que a noite, a noite é rara. O passo cambaleante, os amigos atropelando-se pelas guias: vem aqui que isso não acaba nunca, o ser só se torna ser quando traz à superfície o inconsciente, que inconsciência?, estamos todos aqui agora. Vamos parar o tempo, olhar para os rostos encavalados nos terraços julgando com suas velhas teorias o novo sangue bêbado das ruas. Pegue mais um copo e beba, beba a Dionísio por tão perfeita embriaguez de espírito em tempos tão retidos. É o que resta, afinal, longe desses muros, a dois passos da ponte; a fumaça, o copo cheio, a lua.
Sou da lira
Manhãzinha
De ninguém
Noite alta
É meu dia
E a orgia
É meu bem"
Samba pela avenida, a dois passos da ponte a noite pode se tornar infinita. Lembra Eduardo Marciano nos acessos boêmios de cantar trepando nos galhos de concreto. Abrir os braços e ocupar toda a rua, abraçar toda a cidade, amar todos os indivíduos, expressar para todas as janelas que a noite, a noite é rara. O passo cambaleante, os amigos atropelando-se pelas guias: vem aqui que isso não acaba nunca, o ser só se torna ser quando traz à superfície o inconsciente, que inconsciência?, estamos todos aqui agora. Vamos parar o tempo, olhar para os rostos encavalados nos terraços julgando com suas velhas teorias o novo sangue bêbado das ruas. Pegue mais um copo e beba, beba a Dionísio por tão perfeita embriaguez de espírito em tempos tão retidos. É o que resta, afinal, longe desses muros, a dois passos da ponte; a fumaça, o copo cheio, a lua.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Primo Basílio
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Tais G. Faraco
Primeiro me olha de soslaio, sente a nudez de meu pulso quando tomares minha mão nas tuas.
Finge que erras o beijo no rosto e beija o canto de meus lábios, prende-me o colar no pescoço e passa os dedos pela pele.
Abraça minha cintura e sente a respiração fraquejar.
Esfrega o teu suor no meu, faz juras de amor sussurradas ao pé do ouvido.
Não deixa as cartas com teu cheiro. Fecha a porta, Primo Basílio, para que meu amor não te pegues.
ps.: originalmente, Primo Basílio terminava com "para que meu marido não te pegues". Porém, relendo-o quatro meses depois, senti o terrível e ameaçador impulso de trocar por "amor" ao invés de "marido". Fique assim, pois, o desejo satisfeito do meu íntimo com a ambiguidade que agora deixou...
Finge que erras o beijo no rosto e beija o canto de meus lábios, prende-me o colar no pescoço e passa os dedos pela pele.
Abraça minha cintura e sente a respiração fraquejar.
Esfrega o teu suor no meu, faz juras de amor sussurradas ao pé do ouvido.
Não deixa as cartas com teu cheiro. Fecha a porta, Primo Basílio, para que meu amor não te pegues.
ps.: originalmente, Primo Basílio terminava com "para que meu marido não te pegues". Porém, relendo-o quatro meses depois, senti o terrível e ameaçador impulso de trocar por "amor" ao invés de "marido". Fique assim, pois, o desejo satisfeito do meu íntimo com a ambiguidade que agora deixou...
quinta-feira, 17 de maio de 2012
três minutos e meio
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Tais G. Faraco
- e meu marido que me deu de dia das mães uma calça branca? Não dá nem pra sentar direito que mancha, não gostei, falei ai vou trocar, minha mãe chiou e disse que eu deveria dizer que gostei, mas pra quê? Eu tô assim. Ele esses dias deixou toda a mesa do escritório desarrumada, falei Carlos Alberto arruma isso que vem visita, ele não arrumou, e a minha vergonha! Também, não me dá dinheiro. Tudo bem, eu me viro com o que eu ganho, mas preciso fazer pé e mão, ai você viu meu pé? A manicure cortou aqui, como ficou feio...Tive que comprar um sapato quando saí de lá, passei na loja e vi essa bota maravilhosa. Sabe quanto? Baratíssima. O Carlos Alberto ficou uma arara, disse como você pode gastar tanto assim? Ué, essa bolsa aqui eu paguei dez reais, como é gastar tanto? Agora, com cabelo eu tenho luxo! Ai, tô com uma fome, corri o dia inteiro hoje, só parei agora, menina. Vamos comer? Ali do lado fazem um café que dá vontade até de rezar, aí você pede um croissant e ó, dieta vai por água abaixo. Ontem engordei 1 quilo! Mas ué, eu como maçã e bebo água o dia inteiro! Daí é comer uma sopa que parece que a gente tá estufada. Você viu a vizinha, como tá gorda? Remédio. Fica aí tomando remédio pra emagrecer, é um veneno, não pode fazer isso. Shake tudo bem, eu tomo aquele da Luciana Gimenez, é natural, gostoso e resolve. Ai, a Luciana tá tão bonita né? Um dia vi um vestido que ela usou, tudo de bom! Era verde-água assim, com uns brilhos, maravilhoso. O Carlos Alberto falou nossa que mau gosto, eu nem respondi, às vezes me pergunto por quê é que a gente está junto. Mas sabe... quando namorávamos era tão bom, o noivado também foi bom, depois do terceiro ano de casamento a coisa parece que esfriou, caiu na rotina. Acho que tô precisando de uma viagem. Campos do Jordão? Mas nem morta, muito frio! Não suporto pé congelado. Quero é praia, pegar uma corzinha, que essa cor de dona de casa não dá. Aí ó, falando nele, o Carlos Alberto me ligando, vou ali atender e já volto, aposto que ele quer pedir que eu busque ele no trabalho. Ai ai...Alô?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
poesia imprestável
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Tais G. Faraco
O sol nasce e inunda de uma luz brilhante a janela de seu quarto,
seus olhos se queimam assim que você os abre,
pois a perfeição é bela demais para ser vista...
sofre? não é perfeição, é cinismo,
você estava perdendo as esperanças na noite passada,
se revirou nos lençóis até pegar no sono,
horas antes do sol nascer.
ele nasce, e queima seus olhos.
e não há nada de reconfortante na risada celestial
da sua cara bestial
de quem acreditava no poeta que dizia que sol é alegria, alegria, gloriosa
que alegria?
é uma claridade, ofuscante
só pra te lembrar do que você não consegue esquecer.
seus olhos se queimam assim que você os abre,
pois a perfeição é bela demais para ser vista...
sofre? não é perfeição, é cinismo,
você estava perdendo as esperanças na noite passada,
se revirou nos lençóis até pegar no sono,
horas antes do sol nascer.
ele nasce, e queima seus olhos.
e não há nada de reconfortante na risada celestial
da sua cara bestial
de quem acreditava no poeta que dizia que sol é alegria, alegria, gloriosa
que alegria?
é uma claridade, ofuscante
só pra te lembrar do que você não consegue esquecer.
domingo, 6 de maio de 2012
para um desconhecido
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Tais G. Faraco
É inquieta a sensação de ter te perdido de vez na infinitude de possibilidades nessa metrópole. Você, um completo desconhecido: nem cheguei a te conhecer. De você, ficou apenas a lembrança dos cabelos loiros e da pele branquíssima... Estava a centímetros de mim, por que não nos conhecemos? Vai que eu descubro que ouve Led Zeppelin, detesta macarrão e nunca corre quando toma chuva? Ou então que é surfista frustrado, amante de cinema e prefere Engels a Marx? Nunca irei saber. Muito menos seu cheiro, o som da voz, se canta nas letras ou se fala baixo, a cor dos seus olhos vistos bem de perto... Qual seu signo? Parece Áries, pelos ombros pesados e andar sonhador. Está vendo o que perdemos pela simples comunhão não aceita do silêncio? Poderíamos estar tomando um café.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
o gosto desmedido
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Tais G. Faraco
A hora que o trem passar, eu vou estar ali a milímetros do abismo da plataforma só pra sentir o frio de ansiedade e o vento nos cabelos e o corpo ameaçar ir para trás mas a força excitante do medo paralisá-lo na mesma posição cambaleante. E quando o trem abrir as portas, antes de entrar vou olhar o vão no chão e sentir aquela ansiedade novamente de quase cair no abismo e talvez até ameace um passo em falso pra fazer valer a pena entrar na locomotiva e sair da segurança estática da plataforma, sempre apática, sempre estática... E a loucura que corre pelos trilhos também corre no meu sangue e eu compartilho com você pelos poros cada vez que você me toca no exato instante em que morremos para renascermos logo em seguida, aliviados. A vida é um trem, um trem azul.
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