sexta-feira, 20 de abril de 2012

sobre um sonho:

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Era o caos, a verdadeira desordem da existência. O asfalto rachava-se ao meio e era possível ver o magma da cor do inferno. As milhares de pessoas não seguiam mais as leis inconscientes, agora vagavam sem rumo e avançavam por lugares antes proibidos. O céu - não sei como era o céu - porque todos olhavam o chão, sempre tão resguardado e de repente tão exposto, aberto como uma ferida. Como eram as entranhas da Terra? Os que não tinham nada a perder tentavam ganhar: inúmeras barracas espalhadas ao longo das calçadas já quebradas, entupidas de pequenos produtos sem utilidade, ofertavam apenas no silêncio. Já não era preciso gritar, já não era preciso falar, era um desespero mudo. Como quando o medo cala a voz. E alguns tentavam levar aquele dia apocalíptico como se fosse apenas mais um dia comum. Era meu pai, que andava ao meu lado despreocupado e em paz, sem o anseio irracional do fim. Carregava três filmes clássicos em uma mão, "para vermos mais tarde", e com a outra me guiava por entre a multidão que não tinha nada de turista. Eu voltava os meus olhos desesperados e ele me devolvia os seus azuis calmos, por detrás dos óculos. E quando eu via o inferno debaixo da terra, eu apertava sua mão com força, e ele não me dizia nada porque não precisava ser dito...

terça-feira, 10 de abril de 2012

desesperança

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Disseram-lhe desde muito criança que trevo de quatro folhas dava sorte. Passou muito tempo procurando no meio do asfalto, no meio da grama, na moita e no chão. No dia que achou, fez do trevo de quatro folhas três, duas, uma, nenhuma folha e só uma minúscula haste, que jogou no chão e continuou a vida.

sábado, 24 de março de 2012

bença, pai

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- antes de sair, pede bença pro pai. Que é pra não acontecer de algo ruim te pegar no meio do caminho, e espera ele responder pra estar abençoada. Pede bença pra mãe também, que ela protege você. Se nem pai nem mãe estiverem presentes, terem saído pra comprar pão e café, e no lugar se encontrar apenas o avô, pede bença pro avô também, que avô abençoa, é sangue do mesmo sangue, é família. Mas enche a boca de fé e carinho, porque pedir bença é sagrado, é fazer de pai e mãe pequenos deuses. O pai porque protege a mãe e o filho, e a mãe porque cede seu corpo para a criação. E se você é filho, tem que pedir bença pro pai e bença pra mãe, encostando a sua pele na pele deles que é pra benção completar a proteção que foi selada no destino divino do sangue do mesmo sangue. É família.

sábado, 17 de março de 2012

foi cinematográfico

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À meia-luz não foi possível vislumbrá-la de todo, mas o andar vagaroso, a maneira delicada com que subiu as escadas sutilmente iluminadas do cinema e a pequena bolsa a tiracolo completaram a absoluta solidão daquela senhora. De certa forma, se estivesse acompanhada de alguma velha amiga e ambas subissem delicadas as escadas, seria um compasso em conjunto e a tristeza do isolamento já não teria mais evidência. Poderia se supor, logicamente, que a decisão de ir ao cinema e a compra dos ingressos não caberia apenas a uma pessoa, mas às duas amigas, que conversariam sérias na fila do guichê. Entretanto, eliminando-se a segunda pessoa da imaginária situação, o que sobrou à senhora é - e da qual não é possível fugir - a solidão, esta real, curiosamente chamativa quando ela subiu devagar as escadas daquele cinema. E quando as luzes acenderam, decretando o final do filme, foi a sua silhueta que partiu após os créditos, deixando atrás de si seu rastro de aura.




"O conceito benjaminiano de aura designa o fascínio concentrado e melancólico que determinada coisa assume no instante do seu desaparecimento".

quarta-feira, 14 de março de 2012

de dentro da alma

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De tudo, resta a pergunta, que já foi a de Calvino: como poderemos esperar salvar-nos naquilo que há de mais frágil?

segunda-feira, 12 de março de 2012

o que acontece com os devaneios

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Apontou para a grande árvore à sua frente, recortada contra o fundo azul-escuro do céu, e disse para ninguém:

- Olha, a árvore da vida.

Achou a frase bonita, depois sentiu vontade de explicar, para a criança que passava segurando uma bola vermelha:

- Cada galho é como se fosse um ser vivo, e mais outro, e mais outro; tudo em torno de algo maior e imponente, que é o tronco.

A criança piscou, ofereceu a bola para brincar, ao passo que foi negada. Foi embora, passou o gato, sentiu vontade de também explicar-se para o gato:

- O engraçado é que você, religioso, pode dizer que o tronco é Deus; e você, cientista, pode dizer que é o gene.

O gato fugiu miando alto. No fim, ainda só, concluiu para si:

- Eu acho que é uma árvore, velha senhora, que tem todo o direito de permanecer imóvel, solene, assistindo às metáforas que dão para si. Hoje, árvore da vida, amanhã o que será?

As formigas aplaudiram o discurso do lobo solitário.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

à noite, os gatos são pardos

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Encontrado em meio a cartas de banqueiros, havia um bilhete de seu amigo contando mais uma de suas sádicas aventuras com mulheres bem pagas. Esse bilhete, em especial, merecia uma moldura para ser posto na parede; o retrato autêntico de um homem à beira de seu desespero. Em apenas poucas linhas, ele dizia:

"Insisti-lhe para que tirasse logo a roupa, chegando a comprimir sua garganta com as mãos. Qual não foi minha surpresa quando, tirado tudo, aquela distinta mulher revelou-se um composto oblíquo de elementos flácidos!"
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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