terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

vira, Edmundo

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Edmundo animal, bêbado como um cachorro no banco da Rua Direita. Ele e o outro, pondo-se a brincadeiras de músicas, cada qual olhando para cima sem lembrar-se de nenhuma. “Como é aquela mesmo? Ta na na nan” e com o corpo deu um floreio, tentando fazer o ritmo da bateria. O outro negou, o floreio não era daquele jeito, talvez menos curvo, assim. Os dois rodando no ar, unicamente para trazerem à memória a primeira palavra que evocasse a bendita música, os dois enérgicos, adeptos da filosofia de que o movimento aviva as recordações; foram tachados de loucos pela senhora que passou no outro lado da calçada carregando as compras do mercado.

Eram loucos? Outro dia Edmundo subiu ao ônibus de barba feita, cabelo lavado e calça nova. Não perguntei se era uma ocasião solene, visto que trazia as duas mãos postas calmamente no colo em caráter sério. Última vez fora visto bêbado como um cachorro no banco da Rua Direita, com o outro. Mas deram-lhe um sossego, afinal, era Carnaval.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

seis e meia

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Nesses dias em que a tarde parece que posa com volúpia, só pedindo para ser fotografada, insinuando-se mais e mais a cada minuto que passa. E não há uma câmera, há apenas palavras. Mas não parece ser suficiente, e então a tarde se fecha num breu, ressentida.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

com infindável descarinho:

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Quando ele encostava sua pele na minha, eu sentia Vivaldi. Amávamos como uma orquestra, os clarinetes terminando tudo em um sussurro uníssono. Mas depois de um tempo passei a sentir a Nona de Beethoven e então tudo acabou.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ao Romantismo:

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Goethe, meu irmão. Nós, eternos apaixonados pela paixão. Não há de percebermos quão casto tornou-se esse insigne sentimento? Não, não há loucuras e nem mortes decretadas por amor, mas sim, antes de tudo, a maliciosa consciência a fazer-se de sábia ao resguardar os gestos. Que solene é este espetáculo! Vivemos entre os eruditos covardes, temerosos da dor, incapazes de se entregarem ao verdadeiro excesso, à verdadeira virtude que é amar. A dor, caríssimos, existe unicamente como condição por deleitar-se de algo tão puro e febril; ela é, portanto, estritamente necessária. Tal qual a morte que espreita uma abelha depois de sua reprodução; tal qual a vida, que nos permite sentir o dissabor do fim após décadas saboreando a existência. Jovem Werther, sofra. Não só porque do sofrimento vem a melhor escrita, mas porque é só através dele que podemos compreender quão humano fomos. Há de um dia os pobres mortais entenderem essa derradeira paixão que sentimos e, quem sabe então, o lídimo Romantismo deixe de ser palco de céticas risadas...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

notícia

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HOMEM PASMA SEGUNDA-FEIRA


Acordou, beijou a mulher na face rubra,
Deixou na caneca a marca da boca muda, comeu o pão adormecido,
Saiu de casa com a maleta cinza, o chapéu meio de lado, a barba por fazer.

Assoviou bossa-nova, a caminho do edifício,
Subiu no andaime, tão logo caiu
Segunda-feira, estatelado no asfalto, atrapalhou o trânsito,
Ainda acordou achando que era domingo.

Desde então, vive desorientado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sonhos em um dia de verão

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Era um fim de tarde, tempo fechado, restos de chuva pelo asfalto. Ainda dava pra sentir o cheiro de grama molhada e o céu clareava um amarelo escondido. Itália. Faltava era um violino, chapéus, mesas de café pelas calçadas, italianas e seus vestidos, acompanhadas de homens altos. Depois, virando a esquina, o claro do céu já estava escuro, cinza, as nuvens fechadas torcendo algumas últimas gotas. Inglaterra. Faltava eram cachecóis, luvas nas mãos a segurarem um copo quente de chocolate, risadas sobre uma varanda de frente para a metrópole. Mais adiante, o dia foi cedendo já seu lugar à noite, a chuva se esgotava de tanto molhar e a brisa ia surgindo fresca, com as nuvens adormecidas. Espanha. Faltava era um restaurante decorado com velas, fonte no meio de uma pracinha com casais se divertindo solitários, vendedores com suas frutas e peixes frescos.

Aí a noite pintou tudo de preto, a lua não surgiu e o que faltava era voltar caminhando para a casa com passadas lentas de quem precisa tragar tudo uma última vez antes de parar de sonhar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"poema é coisa que se faz vendo"

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O cego se apóia no cego e juntos começam a andar.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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