Era um fim de tarde, tempo fechado, restos de chuva pelo asfalto. Ainda dava pra sentir o cheiro de grama molhada e o céu clareava um amarelo escondido. Itália. Faltava era um violino, chapéus, mesas de café pelas calçadas, italianas e seus vestidos, acompanhadas de homens altos. Depois, virando a esquina, o claro do céu já estava escuro, cinza, as nuvens fechadas torcendo algumas últimas gotas. Inglaterra. Faltava eram cachecóis, luvas nas mãos a segurarem um copo quente de chocolate, risadas sobre uma varanda de frente para a metrópole. Mais adiante, o dia foi cedendo já seu lugar à noite, a chuva se esgotava de tanto molhar e a brisa ia surgindo fresca, com as nuvens adormecidas. Espanha. Faltava era um restaurante decorado com velas, fonte no meio de uma pracinha com casais se divertindo solitários, vendedores com suas frutas e peixes frescos.
Aí a noite pintou tudo de preto, a lua não surgiu e o que faltava era voltar caminhando para a casa com passadas lentas de quem precisa tragar tudo uma última vez antes de parar de sonhar.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
"poema é coisa que se faz vendo"
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Tais G. Faraco
O cego se apóia no cego e juntos começam a andar.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.
Um ergue a cabeça, de olhos fechados, o peito sobe e desce enchendo-se de ar.
- Escuta esse cheiro.
O outro respira, toca o ar, sorri, passa a mão na cabeça.
- Tô ouvindo. Parece vermelho.
domingo, 30 de outubro de 2011
tupiniquim
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Tais G. Faraco
Rodou o LP de Martinho da Vila, saiu sambando pela casa. Todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba. Contaminou-se pelo ritmo, trocou por Jair Rodrigues e foi à janela paquerar. Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? O que tem é que à janela não conseguiu a atenção desejada, quis ouvir a voz de Mario Sousa Marques Filho: reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Achou que o incidente na janela poderia ser bem descrito por Noel Rosa, trocou o LP. E eu pergunto, com que roupa?, com que roupa que eu vou, pro samba que você me convidou. Depois, sem fôlego para sambar, mudou de disco, Chico Buarque, exigia sentar na poltrona e ler Clarice com um cigarro entre os dedos. Mulher, você vai gostar, tô levando uns amigos pra conversar. E depois de tudo isso o que pede é botar Cartola, porque mesmo com samba chega a hora inadiável de se angustiar na varanda, com o pôr-do-sol a ouvir a última melodia do dia. Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos, tão mesquinho. Vai reduzir as ilusões a pó...
domingo, 16 de outubro de 2011
blues
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Tais G. Faraco
Começava devagar.
Saboreava o gosto puro de cada nota com a paciência de um meticuloso em busca da iluminação. A iluminação musical. E quando pensava nisso o calor ia subindo e emanava pelos poros... e então as notas exigiam amor e eram tocadas como mulheres...ia subindo....subindo...até atingir o pico, a libertação clássica de tudo o que se prende, era uma viagem mental e corporal, dedilhava com a mesma rapidez com que o suor escorria da sua testa, agora envergada, tentando alcançar as notas mais profundas da composição que era antes de tudo sua própria alma que ele precisava cavar cada vez mais fundo até encontrar aquilo que todos passam a vida procurando aquilo que as fazem perder o ar e o chão até se sentirem caindo em um abismo de total compreensão dos sentidos onde o mínimo toque de pele arrepia a espinha enquanto tudo isso é engolfado pelo som febril que nasceu nas ruas e nos becos onde se encontram a mais sincera e profunda arte já feita porque representa os olhos da alma boêmia alma essa mesma alma que agora se enche de iluminação por ter enfim encontrado sua sintonia com as notas musicas expelidas agora em decrescente sensações...que vão se rebaixando...tornando-se inaudíveis...mas totalmente sensitivas...o som do mais rele ser humano pisando nessa superfície fria...quando por dentro está cultivando calor...e tudo termina na última nota, angustiada, por onde terminam todos os fins existentes.....
Saboreava o gosto puro de cada nota com a paciência de um meticuloso em busca da iluminação. A iluminação musical. E quando pensava nisso o calor ia subindo e emanava pelos poros... e então as notas exigiam amor e eram tocadas como mulheres...ia subindo....subindo...até atingir o pico, a libertação clássica de tudo o que se prende, era uma viagem mental e corporal, dedilhava com a mesma rapidez com que o suor escorria da sua testa, agora envergada, tentando alcançar as notas mais profundas da composição que era antes de tudo sua própria alma que ele precisava cavar cada vez mais fundo até encontrar aquilo que todos passam a vida procurando aquilo que as fazem perder o ar e o chão até se sentirem caindo em um abismo de total compreensão dos sentidos onde o mínimo toque de pele arrepia a espinha enquanto tudo isso é engolfado pelo som febril que nasceu nas ruas e nos becos onde se encontram a mais sincera e profunda arte já feita porque representa os olhos da alma boêmia alma essa mesma alma que agora se enche de iluminação por ter enfim encontrado sua sintonia com as notas musicas expelidas agora em decrescente sensações...que vão se rebaixando...tornando-se inaudíveis...mas totalmente sensitivas...o som do mais rele ser humano pisando nessa superfície fria...quando por dentro está cultivando calor...e tudo termina na última nota, angustiada, por onde terminam todos os fins existentes.....
sábado, 17 de setembro de 2011
relato sobre o amor
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Tais G. Faraco
Um dia, descobriu: haviam mumificado o amor. Ele já tinha se esvaído do coração dos nobres, morto, sem gosto nem cheiro. E só restaram as cinzas, ah! outrora cinzas de fênix...Manteve-se a morte para eternizar a beleza. Que beleza, senão a amarga realidade da decomposição? Banhou-se o amor em empirismo, gestos e dúvidas para resguardar esses olhos reveladores da alma, mas por dentro estão podres, estão podres porque há muito já morreram. E essa podridão comicamente perturbadora consumiu os nobres a tal ponto que se esqueceram que é do adubo que nasce a mais singela forma de vida.
domingo, 28 de agosto de 2011
atravessando gerações
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Tais G. Faraco
A Sra. Silva correu para contar ao marido:
- Deu positivo! Deu positivo! Estou grávida!
Felicíssimos, os dois. Não se cabiam de alegria. Nem sabiam o que fazer. Compramos já o enxoval? Que cor? Que escola matricular a criança? Precisamos guardar dinheiro para quando for para o exterior? E a faculdade? E o casamento?
A vida do bebê passou diante de seus olhos em uma fração de segundo. Era uma boa notícia, mas não seria fácil criar um filho.
A primeira preocupação, no entanto, foi a mais simples, mas talvez a que poderia trazer mais conseqüências definitivas: a alimentação.
O que uma grávida tem que comer para não parir um bebê gordo e sonolento? A Sra. Silva foi junto com o marido à uma especialista e saiu de lá franzindo o cenho:
- Nunca me senti tão brasileira. Ter que ficar comendo verde e amarelo... Sei não, meu bem, vai ser difícil para mim. Muito difícil.
O marido respondeu com ar grave:
- Para mim também não está fácil. Tenho que comer essas coisas verdes todas com você. Ah, os lanches...Mas temos que pensar no bebê, é pelo bem dele. Tudo é ele agora.
E assim os meses se passaram, a barriga crescendo cada vez mais. A Sra. Silva já não agüentava mais e um dia pediu ao marido, toda dengosa:
- Meu bem... Podemos ir ao McDonald’s? Só dessa vez, vai...
Ele limitou-se a olhá-la, com desdém.
- Por favor, desejo de grávida.
E a frase surtiu efeito como toda grávida sabe fazer.
A contragosto, o marido levou-a ao McDonald’s. “Mas será a última vez”, pediu ele, “não quero meu filho com cara de Big Mac quando nascer”. Para agradar o marido, a Sra. Silva pediu a opção mais saudável do cardápio: um McChicken.
- Olha, querido, é frango grelhado, tem menos gordura. Ah, senhor, o combo acompanha um refrigerante de 500ml tá?
A primeira mordida trouxe um êxtase danado, tamanho bem-estar aquela comida dava à ela. O bebê até chutou. “De felicidade”, supôs ela. Devorou em pouco tempo. Pelo menos o filho não ia nascer com cara de Big Mac.
Porém, a Sra. Silva não esperava que o primeiro lanche em muitos meses trouxesse uma dependência muito forte. Ela não podia ver as cores vermelha e amarela juntas que seu corpo já comichava. Um dia, em uma dessas vontades, coçou a bochecha. “Agora meu filho vai ter uma marca de nascença em forma de Mc Donald’s”, pensou aflita. Era o fim.
A solução encontrada foi muito simples. Comeu escondida do marido, assim evitava os comichões e as marcas de nascenças que poderia gerar com esse desejo todo. Assim fez até o fim da gravidez, sem nunca gerar qualquer desconfiança.
No nono mês da gestação, a Sra. Silva foi ao hospital para o parto. Voltou para a casa com um lindo garotinho nos braços. Rechonchudo, com uma pinta engraçada na bochecha.
- Que pinta é essa? – observou o marido – Parece uma letra...
- Ah, vai ver o bebê adivinhou a letra do nome dele...
- É, vai saber...
E o assunto morreu.
Muito tempo depois, o pai estava brincando com o filho quando o pequeno falou:
- Méquiti!
O pai quase caiu para trás.
- Meu bem! Ele falou! A primeira palavra, vem ouvir!
A Sra. Silva veio correndo, emocionada.
- Fale de novo para a mamãe escutar, filho.
- Méquiti!
Os dois se entreolharam. O que será que era isso?
- Poxa, esperava um “papá” da primeira vez – suspirou o marido.
- Com o tempo ele aprende, se acalme.
- Méquiti! – gritou o bebê.
- O que, filho?
- Méquiti! – e começou a chorar.
- Meu Deus, o que está acontecendo?
O pai ficou em silêncio. Aí disse, soturno:
- Querida.
- Sim?
E o bebê chorava.
- Você entendeu o que ele falou?
- Não... você entendeu?
- Entendi.
Silêncio. E terminou de dizer, grave:
- Ele disse McChicken.
- Deu positivo! Deu positivo! Estou grávida!
Felicíssimos, os dois. Não se cabiam de alegria. Nem sabiam o que fazer. Compramos já o enxoval? Que cor? Que escola matricular a criança? Precisamos guardar dinheiro para quando for para o exterior? E a faculdade? E o casamento?
A vida do bebê passou diante de seus olhos em uma fração de segundo. Era uma boa notícia, mas não seria fácil criar um filho.
A primeira preocupação, no entanto, foi a mais simples, mas talvez a que poderia trazer mais conseqüências definitivas: a alimentação.
O que uma grávida tem que comer para não parir um bebê gordo e sonolento? A Sra. Silva foi junto com o marido à uma especialista e saiu de lá franzindo o cenho:
- Nunca me senti tão brasileira. Ter que ficar comendo verde e amarelo... Sei não, meu bem, vai ser difícil para mim. Muito difícil.
O marido respondeu com ar grave:
- Para mim também não está fácil. Tenho que comer essas coisas verdes todas com você. Ah, os lanches...Mas temos que pensar no bebê, é pelo bem dele. Tudo é ele agora.
E assim os meses se passaram, a barriga crescendo cada vez mais. A Sra. Silva já não agüentava mais e um dia pediu ao marido, toda dengosa:
- Meu bem... Podemos ir ao McDonald’s? Só dessa vez, vai...
Ele limitou-se a olhá-la, com desdém.
- Por favor, desejo de grávida.
E a frase surtiu efeito como toda grávida sabe fazer.
A contragosto, o marido levou-a ao McDonald’s. “Mas será a última vez”, pediu ele, “não quero meu filho com cara de Big Mac quando nascer”. Para agradar o marido, a Sra. Silva pediu a opção mais saudável do cardápio: um McChicken.
- Olha, querido, é frango grelhado, tem menos gordura. Ah, senhor, o combo acompanha um refrigerante de 500ml tá?
A primeira mordida trouxe um êxtase danado, tamanho bem-estar aquela comida dava à ela. O bebê até chutou. “De felicidade”, supôs ela. Devorou em pouco tempo. Pelo menos o filho não ia nascer com cara de Big Mac.
Porém, a Sra. Silva não esperava que o primeiro lanche em muitos meses trouxesse uma dependência muito forte. Ela não podia ver as cores vermelha e amarela juntas que seu corpo já comichava. Um dia, em uma dessas vontades, coçou a bochecha. “Agora meu filho vai ter uma marca de nascença em forma de Mc Donald’s”, pensou aflita. Era o fim.
A solução encontrada foi muito simples. Comeu escondida do marido, assim evitava os comichões e as marcas de nascenças que poderia gerar com esse desejo todo. Assim fez até o fim da gravidez, sem nunca gerar qualquer desconfiança.
No nono mês da gestação, a Sra. Silva foi ao hospital para o parto. Voltou para a casa com um lindo garotinho nos braços. Rechonchudo, com uma pinta engraçada na bochecha.
- Que pinta é essa? – observou o marido – Parece uma letra...
- Ah, vai ver o bebê adivinhou a letra do nome dele...
- É, vai saber...
E o assunto morreu.
Muito tempo depois, o pai estava brincando com o filho quando o pequeno falou:
- Méquiti!
O pai quase caiu para trás.
- Meu bem! Ele falou! A primeira palavra, vem ouvir!
A Sra. Silva veio correndo, emocionada.
- Fale de novo para a mamãe escutar, filho.
- Méquiti!
Os dois se entreolharam. O que será que era isso?
- Poxa, esperava um “papá” da primeira vez – suspirou o marido.
- Com o tempo ele aprende, se acalme.
- Méquiti! – gritou o bebê.
- O que, filho?
- Méquiti! – e começou a chorar.
- Meu Deus, o que está acontecendo?
O pai ficou em silêncio. Aí disse, soturno:
- Querida.
- Sim?
E o bebê chorava.
- Você entendeu o que ele falou?
- Não... você entendeu?
- Entendi.
Silêncio. E terminou de dizer, grave:
- Ele disse McChicken.
domingo, 24 de julho de 2011
o nó de cada dia
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Tais G. Faraco
É um desejo de negar tudo e voltar ao estado primitivo da consciência.
É um pessimismo que alimenta quase como o sangue te faz vivo. Um pessimismo não de viver, mas da vida como se faz até aqui.
A vida dos chicletes, pequenas gomas de petróleo que alimentam os olhos e ocupam a boca, esta mesma, que se preocupa em mascar corantes e não soltar palavras. Essa vida que virou a dos grandes capitais - vilões ou mocinhos? - felizes por nos brindar com um copo de café com açúcar branco logo de manhã. Branco por estética: a criação da noção de pureza com soda cáustica. Um verso como este parecido com uma notícia dos telejornais. Frases curtas, ponto final aqui, dois pontos ali. Afinal, o cachorro da titia também precisa entender o noticiário.
O ser vivo moderno é empregado se pagou para outros lhe ensinarem coisas que poderia aprender sozinho. Mas autodidata - o que é autodidata? - é uma palavra quase extinta do vocabulário daqueles que estão atrás das mesas de mogno. O ser vivo é pago para dizer que uma planta não é um outro ser vivo - curiosamente semelhante - mas um combustível, um alimento para seus grandes filhos de aço, tão crianças que cospem os restos no céu.
Livros de monges, histórias de Jesus e canções natalinas são última tendência. Evocam lá no fundo aquele sonho lúdico, já empoeirado, de belas montanhas, casinhas de madeira e existência pacífica. Fios, aço, ferro, fibra ótica, álcool, petróleo, glutamato de sódio são palavras que você queria esquecer para sempre.
Sabe o impossível? Ele existe. Ele existe, e vive dentro de mim.
É um pessimismo que alimenta quase como o sangue te faz vivo. Um pessimismo não de viver, mas da vida como se faz até aqui.
A vida dos chicletes, pequenas gomas de petróleo que alimentam os olhos e ocupam a boca, esta mesma, que se preocupa em mascar corantes e não soltar palavras. Essa vida que virou a dos grandes capitais - vilões ou mocinhos? - felizes por nos brindar com um copo de café com açúcar branco logo de manhã. Branco por estética: a criação da noção de pureza com soda cáustica. Um verso como este parecido com uma notícia dos telejornais. Frases curtas, ponto final aqui, dois pontos ali. Afinal, o cachorro da titia também precisa entender o noticiário.
O ser vivo moderno é empregado se pagou para outros lhe ensinarem coisas que poderia aprender sozinho. Mas autodidata - o que é autodidata? - é uma palavra quase extinta do vocabulário daqueles que estão atrás das mesas de mogno. O ser vivo é pago para dizer que uma planta não é um outro ser vivo - curiosamente semelhante - mas um combustível, um alimento para seus grandes filhos de aço, tão crianças que cospem os restos no céu.
Livros de monges, histórias de Jesus e canções natalinas são última tendência. Evocam lá no fundo aquele sonho lúdico, já empoeirado, de belas montanhas, casinhas de madeira e existência pacífica. Fios, aço, ferro, fibra ótica, álcool, petróleo, glutamato de sódio são palavras que você queria esquecer para sempre.
Sabe o impossível? Ele existe. Ele existe, e vive dentro de mim.
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