quinta-feira, 25 de maio de 2017

a poesia de Salve, Rainha

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O retrato da Nossa Senhora em madeira era repassado a cada dona de casa daquela rua para que se fizesse a oração. À noite, as portas da casa eram abertas para os vizinhos, em sua maioria mulheres, que se reuniam em um círculo na sala de estar enquanto o momento de oração era preparado. Algumas crianças costumavam ir, passavam pelo meio das pernas de seus pais e, enfadados com a verborragia daquela reunião, punham-se a brincadeiras de esconde-esconde para disfarçar a ansiedade do jantar, que só seria servido quando a reunião acabasse. O cheiro das panelas cozinhando legumes e do arroz fumegando no fogo entrava por todas as frestas e excitavam os mais desatentos.
O momento era sagrado, quando finalmente a comunidade se reunia ao seu propósito de comunidade. Abria-se o pequeno livro de orações, ou apenas se desfiava o terço para os que sabiam as letras de cor. Para os novatos, decorar era difícil, os verbos conjugados na segunda pessoa do plural eram de uma sonoridade nova, ausente no cotidiano, e o terço seguia um caminho específico, cada bolinha pedia uma palavra. Era mais fácil espiar o rosário do vizinho pelo canto do olho, mas sabia-se que as bolinhas maiores pediam um momento de mais respeito e pausa, pois a oração ficava diferente.
Dentre os muitos cânticos e versos, havia aquele que desde cedo pareceu-me deslocado no rosário. Era a oração mais poética e mais bela de se ouvir, o som das palavras eram harmoniosos e tinham uma força própria. Toda vez que era clamado por muitas vozes juntas, parecia um momento solene e os joelhos quase que pediam para ceder e encontrar o chão, em sinal de respeito a tão harmoniosa composição.
A oração em questão é a Salve Rainha, que passei anos sem saber os versos por inteiro. Gostava apenas do som, era a parte favorita do rosário, ficava em silêncio apenas a ouvir, sem tentar atropelar as frases desconhecidas. À Rainha fizeram um poema digno da misericórdia dolorosa dos cristãos, e a estrofe final termina com versos pausados e rimas fortes. Tão cerimonioso.

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia,
Vida, doçura, esperança nossa, salve!

A vós bradamos,
Os degradados filhos de Eva.

A vós suspiramos,
Gemendo e chorando
Neste vale de lágrimas.

Eia, pois, advogada nossa,
Esses vossos olhos misericordiosos
A nós volvei!
E, depois deste desterro,
Mostrai-nos Jesus,
Bendito fruto do vosso ventre,

Ó clemente,

Ó piedosa,

Ó doce sempre virgem Maria.
 

lacrônico, o espaço das crônicas. © 2010

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